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Sunday, 19 February 2012

Escritor fantasma

Gostei. Belo ambiente. Excelente argumento.
Titulo original: The Ghost Writer
De: Roman Polanski
Com: Ewan McGregor, Jon Bernthal, Kim Cattrall, Pierce Brosnan, Olivia Williams
Genero: Policial, Suspense
Classificacao: M/12

GB/FRA/ALE, 2009, Cores, 129 min. (IMDB)

Um escritor-fantasma bem sucedido (Ewan Mcgregor) é contratado para concluir a autobiografia de Adam Lang, ex-primeiro ministro britânico, iniciada por um outro escritor que morreu acidentalmente. O projecto é de carácter urgente e presume a sua ida para uma ilha próxima da Costa Este dos Estados Unidos onde Lang vive, em quase total isolamento, com Ruth (Olivia Williams), a sua mulher, e Amelia (Kim Cattrall), sua assistente e amante. Mas, o que à primeira vista parece a oportunidade de uma vida, revela-se muito mais complexo. Para começar, quando o escritor chega à ilha, um escândalo rebenta sobre o suposto envolvimento do ex-primeiro ministro com crimes de guerra e espionagem para a CIA. À medida que o seu trabalho na escrita vai avançando, ele compreende que algo de sinistro existe em toda aquela história e uma suspeição paira sobre a morte, supostamente acidental, do seu predecessor e sobre as mensagens crípticas que um manuscrito por ele deixado possa conter. Último filme de Roman Polanski, é baseado no livro "The Gost" escrito por Robert Harris que, juntamente com o realizador, desenvolveu o argumento.in Publico

Critica:
"Thriller" com os vestígios revisitados do "film noir" Roman Polanski voltou às primeiras páginas dos jornais pelas piores razões e o seu nome apareceu conotado com ultrapassados escândalos sexuais, quase fazendo tábua rasa sobre uma obra absolutamente coerente e importante sob várias perspectivas: um olhar singular sobre o património fílmico e literário - desde a paródia vampiresca de "Por Favor Não me Mordam o Pescoço" (1967) ou o revisionismo algo deslocado de "Piratas" (1986), até às curiosas e mais ou menos heterodoxas adaptações de "Macbeth" (1971), "Tess" (1979) ou ao falhado "Oliver Twist" (2005). No entanto, o que nos interessa, aqui e agora, passa pela sua relação persistente com o "thriller", com os vestígios revisitados do "film noir", com o terror psicológico progressivamente interiorizado: das fantasias terríficas de "Repulsa" (1965), dos diabolismos complexos de "A Semente do Diabo" (1968) ou das paranóias visionárias de "O Inquilino" (1976), até ao "neo-noir" de "Chinatown" (1974) ou ao virtuoso grafismo "hitchcockiano" de "Frenético" (1988), decorre todo um percurso de exploração sistemática dos mecanismos do mistério em imagens, filmando sempre muito bem, com enorme rigor e um sentido perfeito do plano e da relevância da montagem. "Escritor-Fantasma" encaixa nesta pessoal preocupação com os detalhes, com o encadeamento maníaco dos indícios, sem nunca descurar aquilo que constitui uma das suas imagens de marca, desde os tempos precursores do seu mais conhecido filme polaco, "Uma Faca na Água" (1962), um estudo angustiante dos diversos estádios da claustrofobia: um escritor com pouco talento (um Ewan Mc Gregor em grande forma) vê-se contratado para dar consistência literária e narrativa às memórias pessoais e políticas de um ex-primeiro ministro britânico (Pierce Brosnan, em registo quase caricatural, numa emulação evidente de Tony Blair, reforçada pela aparição de uma espécie de "duplo" de Condoleeza Rice), envolvido num escândalo de tortura (a invasão do Iraque e remissões subliminares para a história recente, em pano de fundo). Importante é o facto de substituir um seu predecessor (ausente da narrativa, mas omnipresente nos fatos pendurados no armário ou nas fotos que recolheu, como o fictício agente de "Intriga Internacional" de Hitchcock), que aparentemente se suicidara no mar, ao desaparecer de dentro de um carro encontrado vazio, logo nos primeiros planos do filme, a bordo de um "ferry" que fazia a travessia do continente americano para uma não identificada ilha, com contornos ficcionais de Martha''s Vineyard, embora filmada por razões logísticas algures ao largo da costa alemã. E é neste contexto fantasmático que o filme nos agarra e nos emociona, criando uma tensão crescente, um delírio imagético que nunca cede à facilidade ou à demagogia: de pista em pista, de personagem em personagem, temos um retrato de corpo inteiro da paranóia (sempre a paranóia) que leva o protagonista a reconstituir o "lugar do crime", mais interessado nos fios da trama ficcional (que espantoso "contador de histórias" permanece Polanski) do que na rede infinita de armadilhas politicamente discerníveis. Fechado numa casa, dentro de uma ilha, dentro das suas próprias perplexidades, o escritor afronta todos os fantasmas com a curiosidade de uma criança que abre os brinquedos para descobrir o que contêm no interior. Esta letal inocência confere ao labirinto de referências uma vertigem inimaginável (veja-se a prodigiosa viagem à casa do agente da CIA, guiada pela voz, também ela fantasmática, de um GPS programado, transformado em instrumento de um destino inevitável), um crescendo dramático em que cada imagem faz tanto sentido, quando a cifrada leitura anagramática do texto das memórias. Mas, como no melhor Hitchcock, tudo funciona como um pretexto, como um McGuffin, tendente a fazer do percurso e do ritmo o melhor da demanda. Claro que haverá quem aproveite a exterioridade do virtuosístico argumento (a meias entre Polanski e o autor do romance original, Robert Harris) para falar de autobiográfico ajuste de contas com os tentaculares poderes americanos de que foi "vítima", sublinhando as coincidências do exílio forçado e as manobras intimidatórias, mas o essencial passa por ideias de cinema puro: o gélido ambiente da casa modernista, a recordar imaginativamente (e sem cópias simplistas) a de James Mason, em "Intriga Internacional"; as cinzentas brumas da ilha; as mensagens escritas que passam de mão em mão; o encontro, também ele "hitchcockiano", com uma figura que parece não fazer parte integrante da história (inesquecível "cameo" do grande Eli Wallach); a perturbante presença do feminino mortalmente carnívoro, dando a Olívia Williams, a mulher do ministro, uma densidade inesperada. Tudo no seu lugar, como um "puzzle" gigantesco que se desenrola com a perfeição dos grandes divertimentos fílmicos do passado. Que prazer se torna viver, durante duas horas, dentro de uma redoma cinematográfica, em que as coincidências com o contexto político exterior apenas acentuam o fingimento sistemático das formas fugidias e mutáveis!

Mario Jorge Torres

Sunday, 29 January 2012

Os homens que odeiam as mulheres

Cru e profundamente inquietante, algo está podre no reino do IKEA. Gostei bastante do filme e do ambiente soturno\neurótico do local. Lisbeth soube-me a pouco.
Titulo original: The Girl with the Dragon Tattoo
De: David Fincher
Com: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård
Genero: Drama, Thriller
Classificacao: M/16

GB/ALE/EUA/SUE, 2011, Cores, 158 min. (IMDB)

Mikael Blomqvist (Daniel Craig), jornalista e fundador da revista "Millenium", dedica a sua vida a revelar o crime e a corrupção que minam a sociedade sueca. Como resultado, tem vários inimigos e é tido como culpado num caso de difamação. Um dia é procurado por Henrik Vanger (Christopher Plummer), empresário de renome obcecado em compreender as razões que levaram ao desaparecimento, há mais de 40 anos, da sua sobrinha. Vanger acredita que alguém da família poderá estar relacionado com o desaparecimento de Harriet, cujo corpo nunca foi encontrado. O empresário faz então uma proposta irrecusável ao jornalista: dá-lhe acesso total à sua vida, documentação pessoal e dados familiares em troca da solução para o caso. Com a ajuda de Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma "hacker" profissional com um passado misterioso, Mikael vai encontrar a história da sua vida. Um "thriller" de David Fincher ("Clube de Combate", "Sete Pecados Mortais", "O Estranho Caso de Benjamin Button", "A Rede Social"). Depois do enorme sucesso do filme de Niels Arden Oplev em 2009, é a adaptação americana do primeiro tomo da trilogia "Millennium" de Stieg Larsson, obra que já vendeu 65 milhões de cópias em 46 paísesin Publico

Critica:
David Fincher adapta o primeiro dos três romances de Stieg Larsson: é mais cinema que a versão sueca, mas falta-lhe Noomi Rapace Havia, genuinamente, necessidade de voltar a adaptar ao cinema os romances da trilogia “Millennium” de Stieg Larsson, dois anos apenas após a produção de uma versão escandinava (feita originalmente a pensar na televisão, é verdade, mas estreada em sala)? Digamos que, para lá da tradicional fuçanguice autista dos estúdios americanos e da sua alergia a tudo o que seja falado noutras línguas que não o inglês, havia espaço para se fazer melhor. Os três filmes suecos não passavam de peças funcionais à medida de uma “soirée” televisiva meio distraída, com um ponto grande a favor na presença de Noomi Rapace, que encarnava a heroína gótico-psicótica Lisbeth Salander como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. E faz todo o sentido que seja David Fincher a assumir as rédeas desta “remake”, ou não fossem Lisbeth e o jornalista Mikael Blomqvist, heróis falíveis e fortes, obsessivos e trágicos, à medida das personagens principais da sua filmografia. Não deve, igualmente, ser mera coincidência que os crimes desvendados pela “hacker” asocial e pelo jornalista desacreditado enquanto investigam o passado de uma rica família industrial sueca transportem longínquos ecos de dois dos filmes-chave do realizador americano: “Sete Pecados Mortais” e “Zodiac”. Nas mãos de Fincher e do argumentista Steven Zaillian, assim, o primeiro dos três romances de Larsson ganha uma fluidez e uma inquietação envolventes, confirmando o cineasta americano como mestre do enquadramento atmosférico. O que “Os Homens que Odeiam as Mulheres” tem que o original de Niels Arden Oplev não tinha é a sensação de pântano traiçoeiro de uma sociedade que esconde uma tonelada de esqueletos no armário por trás da sua aparência de funcionalismo-IKEA. É um filme mais duro, mais impiedoso, que lança igualmente um olhar perturbante sobre uma sociedade da informação onde os segredos o são cada vez menos ou por um menor espaço de tempo. Mas perde-se onde, ironicamente, mais importava ganhar - na Lisbeth de Rooney Mara, mais autista e menos humana que a de Noomi Rapace. É uma criação de uma nota só, que nunca penetra realmente até ao núcleo da personagem, tanto mais quanto Daniel Craig é uma excelente opção para a personagem de Blomqvist e o restante elenco consegue fazer milagres com apenas duas ou três cenas (Steven Berkoff e Joely Richardson são extraordinários). O resultado desvia o centro de gravidade de Lisbeth para Blomqvist, com Fincher a subalternizar o mistério policial no centro da trama, reduzindo-o a um simples pretexto para um exercício de estilo virtuoso na construção de uma atmosfera inquietante de corrupção profunda, à medida de um realizador perfeccionista. É um filme eficaz e intrigante, cerebral q. b., mas ao qual falta aquele “rasgo” que o elevasse acima do mero funcionalismo de luxo.

Jorge Mourinha

Friday, 13 January 2012

Deixa-me entrar

Fiquei fascinado por este filme. Adorei.
Titulo original: Låt den rätte komma in / Let the Right One In
De: Tomas Alfredson
Com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar
GeneroDrama, Thriller
Classificacao: M/16

SUE, 2008, Cores, 114 min. (IMDB)

Aos 12 anos, Oskar é um adolescente frágil, martirizado pelos colegas de turma e sem amigos. Ele não contra-ataca, mas sonha vingar-se. Quando conhece Eli, uma menina da sua idade, sente que finalmente encontrou alguém com quem pode ter uma verdadeira relação de amizade. Porém, a rapariga intriga-o: ela apenas sai à noite e, apesar do muito frio, anda sempre de t-shirt. A agravar as suas suspeitas está o facto de a sua chegada a Estocolmo coincidir com uma série de mortes e desaparecimentos misteriosos. Até que tudo se esclarece: ela é uma vampira. Será a amizade de Oskar por ela mais forte que o seu medo?in Publico

Critica:
A história de uma vampira adolescente e do seu único amigo é um dos mais espantosos filmes sobre a adolescência que vemos em muito tempo. E se a nova vizinha do lado só sair à noite, não tiver frio mesmo quando está a nevar, irritar os gatos, não for à escola e só entrar em sua casa depois de ter sido convidada, isso quer dizer que... é uma vampira - mesmo que só tenha 12 anos. Ou, melhor, mesmo que só fisicamente tenha 12 anos. Mas a mais recente revisão do mito dos vampiros não usa o vampirismo como metáfora para o sexo ou para a luxúria (ou mesmo, como "Crepúsculo", para a abstinência adolescente). "Deixa-me Entrar" é uma história de iniciação à idade adulta que é, ao mesmo tempo, mais inocente do que qualquer história de vampiros alguma vez foi, mas também mais perturbante. Por tudo aquilo que deixa por dizer - e deixa muito, porque o sueco Tomas Alfredson prefere sugerir mais do que explicar. Toda a componente sobrenatural é elidida, as cenas de violência gráfica contam-se pelos dedos: há qualquer coisa de fábula nesta história de dois adolescentes sozinhos que encontram conforto nos braços um do outro, mas é uma fábula glacial e selvagem, que segue os cânones vampíricos no seu onirismo inquieto ao mesmo tempo que os subverte com a banalidade do subúrbio desenrascado de Estocolmo onde tudo se passa, e que explora o lado animal, instintivo do vampirismo por oposição à fantasia civilizada da sedução romântica. Oskar é um miúdo de doze anos, filho de pais separados, entregue a si próprio a maior parte do dia e perseguido por um colega de escola que tira especial prazer de o humilhar; as suas fantasias de vingança encontram libertação na faca que mantém escondida debaixo da cama e nas notícias de crimes sórdidos que recorta dos jornais, entre os quais uma vítima que foi sangrada até à morte num subúrbio próximo. A nova vizinha de patamar intriga-o - sobretudo depois de ela se cruzar com ele no pátio do prédio e dizer-lhe que nunca poderão ser amigos. É o princípio de uma viagem que equaciona o estatuto de "outsider" do vampiro com a alienação adolescente dos miúdos em busca de aceitação por parte dos colegas, mas que também joga de modos extremamente inteligentes com a própria reputação "glacial", Bergmaniana, do cinema escandinavo. Por trás de um formalismo preciso e extremamente estruturado, Tomas Alfredson injecta sabiamente doses homeopáticas de emoções arrebatadas (amor, ódio, raiva) como só na adolescência conseguimos sentir - e fá-lo sem precisar de carregar no traço, deixando que um olhar, um gesto, um sorriso digam tudo o que é preciso. Mas também não recua perante o negrume imenso do abismo em que Eli, a menina-vampira, vive - e que não é assim tão diferente do desespero surdo que percorre o quotidiano de Oskar. O impacto emocional de "Deixa-me Entrar" é tão visceral como a erupção súbita da violência animal que o habita a espaços. E reduzi-lo a mero filme de género é injusto para o que é não apenas uma grandíssima surpresa como um dos filmes mais atentos ao que é ser adolescente que vimos em muito tempo.

Jorge Mourinha

Thursday, 12 January 2012

Jogo de Sombras

Previsivel, aborrecido, mais do mesmo ... não gostei
Titulo original: Sherlock Holmes: A Game of Shadows
De: Guy Ritchie
Com: Robert Downey Jr., Jude Law, Jared Harris
Genero: Acção, Aventura
Classificacao: M/12

EUA, 2011, Cores, 126 min. (IMDB)

Sherlock Holmes, o brilhante investigador criado por Sir Arthur Conan Doyle, regressa numa abordagem diferente, cheia de acção, onde o intelecto e a dedução estão agora aliados às artes marciais e ao boxe. Desta vez Holmes e o seu fiel companheiro Dr. John Watson juntam esforços e sinergias para arruinar o terrível plano de um dos seus piores inimigos: o professor Moriarty (Jared Harris). Com a realização de Guy Richie, é a sequela do filme "Sherlock Holmes" (2009) e volta a reunir a dupla Robert Downey Jr. (Holmes) e Jude Law (Watson). in Publico

Monday, 26 December 2011

Belleville Rendez-vous

Gostei. Bonecos deliciosos, grande detalhe.
Titulo original: Belleville Rendez-Vous
De: Sylvain Chomet
Com: Jean-Claude Donda (Voz), Michel Robin (Voz), Michèle Caucheteux (Voz)
Genero: Animação, Comédia
Classificacao: M/6

CAN/FRA/BEL, 2003, Cores, 78 min. (IMDB)

O pequeno Champion é educado pela avó, Madame Souza, para vir a ser um grande ciclista. Mas um dia, anos mais tarde, Champion, que está a participar no celebérrimo Tour de France, é raptado por dois misteriosos homens vestidos de negro. A avó e o fiel cão Bruno partem então à sua procura, numa viagem que os leva até Belleville, onde encontram as "triplettes", excêntricas estrelas do "music-hall" dos anos 30, que decidem ajudá-los. Na última edição dos Óscares, o filme foi nomeado nas categorias de Melhor Filme de Animação e Melhor Canção Original. in Publico

Critica:
O cão ladra e o comboio passa. Uma avó atarracada, carrapito ao alto, exibe os tímidos pêlos de um buço. Fica como um espelho da imagem que os portugueses levaram ao mundo. Só quem não notou o galo de Barcelos estampado na toalha de mesa ou o prato onde se lê "Fátima Maria" (detalhe, detalhe) ficará espantado quando, lá mais para a frente, Madame Souza ataca o piano para cantar, tcham-tcham, "Uma Casa Portuguesa". É uma senhora portuguesa com certeza, mas Madame Souza, a deliciosa protagonista de "Belleville Rendez-Vous", primeira longa-metragem de animação de Sylvain Chomet, até nasceu francesa, como uma evolução a partir da personagem da sua anterior curta-metragem "La Vieille Dame et Les Pigeons" (1998). "Originalmente, como 'La Vieille Dame et les Pigeons' teve muito sucesso no Festival d'Annecy, o meu produtor pediu-me para fazer mais duas curtas-metragens com a mesma personagem, a velha mulher que alimentava pombos com bolos", explica Chomet ao Y, por telefone, a partir de Londres. "Era suposto ser uma trilogia que formaria uma longa-metragem, com a mesma personagem. A segunda curta deveria chamar-se 'La Vieille Dame et les Bicyclettes' e a terceira 'La Vieille Dame et les Ouaouarons' [termo usado no Canadá francófono para designar uma espécie de rãs]. Basicamente o que aconteceu foi que quando comecei a trabalhar no 'storyboard' do segundo filme apercebi-me de que tinha tantas histórias que estava em condições de fazer uma longa-metragem. Como tivemos que alterar a personagem principal da velha senhora, por questões relacionadas com direitos, surgiu a Madame Souza. Tive que mudar o desenho e fiz dela uma portuguesa." Sim, Madame Souza tem um buço, veste-se de escuro e tem o cabelo enrolado num carrapito - quem desenha assim só pode fazê-lo com conhecimento de causa. Chomet inspirou-se nalguma figura real? Ele começa por negá-lo, mas depois admite: "Quando estava em Montreal, Candá, onde vivi durante dez anos, havia um restaurante que era dirigido por portugueses chamado 'Le Roi du Plateau'. Eu costumava ir lá e tornei-me amigo dos proprietários, o Michel e a Mónica Viegas. Talvez tenha sido por isso que quis ter uma personagem portuguesa no filme. Creio que fui influenciado por eles. Na verdade, é a voz da Mónica que se ouve na canção e no monólogo inicial. Além disso, andei a ver uns livros à procura de imagens, para ter uma ideia de como a Madame Souza se vestiria, o carrapito, etc. Em todo o caso, há muitos portugueses em França, são muito identificáveis porque se vestem sempre de escuro." Ah, o estereótipo cultural. Não se preocupem porque, para nós, o inglês de Sylvain Chomet também soa a sotaque de Pepe Le Pew. Além do mais, os "clichés" em "Belleville Rendez-Vous" também não deixam ilesos os franceses, como reconhece Chomet, "sempre a beber vinho e com longos narizes", nem os americanos. "Quando se faz uma caricatura de alguém tenta-se que seja o mais exagerada possível, caso contrário não tem piada. É preciso ir ao extremo", defende. traço à mão. Mas é preciso explicar o que faz Madame Souza num filme de animação franco-belga-canadiano-britânico - as origens da produção estão ligadas ao próprio percurso de Chomet (ver texto ao lado). Numa casa-torre portuguesa em França, com Paris lá ao fundo, uma avó desespera com a melancolia do seu pequeno e silencioso neto. Tenta o piano, depois de lhe notar o olhar atento ao ver Glenn Gould na televisão, oferece-lhe um cachorro. Descobre-lhe, finalmente, a paixão num álbum de recortes com bicicletas e ciclistas. Os anos passam e a casa-torre foi engolida por Paris. Sinais do progresso: a casa está agora inclinada por causa do viaduto ferroviário mesmo ali ao lado, o neto anafado de Madame Souza é agora um atleta delgadíssimo, um espeto com pernas musculadas, mas ainda melancólico e macilento, o seu rosto é só nariz. Champion, como se chama, treina para a Volta a França em bicicleta, com Madame Souza sempre atrás, no velho triciclo ou matraqueando pela casa com a sua bota ortopédica, para compensar uma perna mais curta que a outra. Ela há-de segui-lo para todo o lado, mesmo quando é raptado por um par de mafiosos que o levam num transatlântico descomunal para outra cidade. Champion tem a quem sair: Madame Souza pedala um oceano inteiro, contra marés e tempestades, para resgatar o neto. "Belleville Rendez-Vous" é uma animação contra-corrente, que quer mostrar o desenho numa altura em que neste campo os bonecos se batem pelo maior grau de realismo possível. Não, aqui tudo está na vibração do traço feito à mão por uma equipa de animadores. Se "À Procura de Nemo" era sobre peixes que agem como humanos, a fisionomia das figuras humanas em "Belleville Rendez-Vous" têm características animalescas. "Uma personagem que foi intencionalmente inspirada num cavalo de corrida é Champion. Os ciclistas são personagens fascinantes, nunca parecem estar a disfrutar da corrida, têm sempre estampado no rosto a dureza da prova. Acho que nunca vi um ciclista com um ar feliz, nem quando é o vencedor. E é verdade que as três irmãs parecem insectos gigantescos...", diz Chomet. As três irmãs: é preciso dizer que são um trio de velhas cantoras do "music-hall" dos anos 30, uma piscadela de olho a Betty Boop. São elas que abrem "Belleville Rendez-Vous", num delirante "show" a preto e branco que inclui ainda Josephine Baker, Django Reinhardt e Fred Astaire - vejam como o desenho dança -, para desaparecerem, de seguida, quando a emissão televisiva é interrompida. São figuras angulosas numa cidade de obesos, Belleville, que é onde o transatlântico e a história vão dar. Belleville, ou seja, Nova Iorque, uma megalópole com edifícios altos, táxis amarelos e uma Estátua da Liberdade bovina. É aí que se descobre Madame Souza como uma invulgar precursora de "street music", de música concreta, e se dá o seu encontro com as três irmãs, as "triplettes de Belleville", agora mais velhas, mas que ainda continuam a viver para a música. Fazem aquilo a que Chomet chama "jazz doméstico", uma música de persussão produzida a partir de objectos quotidianos, um jornal, grelhas de um frigorífico, um aspirador - e, agora, Madame Souza, que fez dos raios de uma roda de bicicleta o seu xilofone. "Eu tinha esta ideia, provavelmente inspirada no espectáculo 'Stomp', que vi em Montreal, onde os sons são produzidos a partir de objectos como vassouras, latas de lixo, etc., de fazer uma música rítmica do mesmo género." E foi assim que "Belleville Rendez-Vous", a canção, com música de Benoît Charest, se viu nomeada para um Óscar da Academia. guiados pelo movimento. Chomet diz que o som representa 50 por cento de um filme. Praticamente não há diálogos em "Belleville Rendez-Vous", que é uma animação guiada pelo movimento. Pensamos nos "cartoons" de Tex Avery, que desenvolveram uma lei de física muito própria, mas "Belleville Rendez-Vous" tem sobretudo o "timing" do burlesco de Tati, referência generosamente citada: está lá uma rosa-dos-ventos com o carteiro de Tati na sua bicicleta, um poster de "As Férias de M. Hulot", um excerto de "Jour de Fête". "Eu queria que as três irmãs vissem um filme na televisão e lembrei-me do Tati, por causa do período em causa e por causa do ciclismo. E depois, os animadores acharam que era engraçada inserir outras referências a Tati", explica o realizador. Para Chomet, a animação é, antes de mais, um trabalho de actor: cada animador tem de ser, em certo sentido, um mimo, para poder reproduzir os gestos na sua personagem. "Quero que as histórias passem através da animação, os elementos visuais, da realização, e não através do diálogo. Julgo que esse é o principal problema da animação que se faz nos Estados Unidos: eles falam o tempo todo, só para disfarçar o facto de as histórias ou a direcção não serem boas. Basicamente, o que fazem é contar a história em vez de fazer a história agir ['acting the story']. Foi por isso que decidi que tudo seria transmitido através da mímica, dos gestos." Quais são as vantagens ou dificuldades de trabalhar sem diálogos? "Não há nenhuma dificuldade. É mais difícil trabalhar com diálogo do que sem ele. Porque se pode dizer tudo com um só gesto ou com o som. Mesmo que não haja diálogos e se tenha imensos sons, há uma história que é contada. Os sons dizem qualquer coisa, a música também." Chomet considera-se "um observador", diz que tenta "ter o mínimo de invenção". A França que desfila no seu filme é popular, com ambientes tipificados, quase bilhete-postal, mas "bas-fond". A paleta não é colorida, mas glauca, cinzenta. O "look" é retro, mas não se trata propriamente de um exercício de saudosismo. "É mais interessante, graficamente, desenhar objectos dos anos 50 do que contemporâneos, são mais marcados e inspiradores. Dá mais prazer desenhar um televisor dos anos 50 do que um Honda Civic, percebe?" Errrr... "Desenhar pessoas velhas é mais interessante do que desenhar crianças, por exemplo. Porque as crianças não têm uma forma real, não têm as rugas, as marcas de pele dos idosos. É mesmo uma questão de linhas: há mais linhas num objecto ou numa figura velha. Se pegar na Torre Eiffel, é uma arquitectura complexa, consegue-se uma coisa muito forte ao desenhá-la. O mesmo não acontece se desenhar a Torre de Montparnasse, em Paris, que é um bloco negro, não há nada de característico." Onde é que entram os computadores, o contributo da animação digital, em "Belleville Rendez-Vous"? No oceano translúcido que se vê na terrífica sequência da travessia, mas também é uma forma de aliviar os aimadores de tarefas aborrecidas, como objectos que levam imenso tempo a desenhar porque não se alteram com o movimento - bicicletas, carros, comboios. "Não se vai prestar muita atenção a objectos que estão em pano de fundo, vamos olhar para as personagens, essas sim, minuciosamente desenhadas à mão." Em termos de técnica de cinema, Chomet afirma-se autodidacta. A par da sua formação em animação, rodeou-se de livros "para aprender os princípios básicos: onde se coloca a câmara, as personagens, como é a direcção de actores". "Quando faço animação, imagino sempre que há uma câmara real." "Belleville Rendez-Vous" é uma animação surrealista e desopilante, com cinema lá dentro: é a última imagem que se vê, um ecrã de cinema ambulante, a pedalar na paisagem. Ficou surpreendido com as nomeações para os Óscares de melhor filme de animação e melhor canção original? Chomet hesita, faz uma pausa. "Não sei... Fiquei surpreendido por termos duas nomeações." E depois: "Basicamente, a Academia premeia os filmes que rendem mais no 'box-office'. É uma forma de recompensar os 'bulldozers' que esmagam tudo por onde passam. É indecente que um filme como 'O Senhor dos Anéis' leve toda aquela quantidade de Óscares só por causa do 'box-office'. Não deviam chamar aos Óscares uma competição. Seria mais honesto dar os prémios directamente, a partir dos resultados das bilheteiras. Claro que eu sabia desde o princípio que 'Nemo' ia ganhar o Óscar. Não foi uma surpresa. Como já não há qualquer surpresa nos filmes de animação americanos, vê-se o 'trailer' e está lá o filme todo." Oh-la-la.

Kathleen Gomes

Wednesday, 21 December 2011

Missão Impossível 4

Sofrível ... pouco mais, para mim o tema está esgotado
Titulo original: Mission: Impossible - Ghost Protocol
De: Brad Bird
Com: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Paula Patton
Genero: Thriller, Acção
Classificacao: M/12

EUA, 2011, Cores, 133 min. (IMDB)

Quando o agente especial Ethan Hunt (Tom Cruise) é implicado num bombardeamento que assola o Kremlin de Moscovo, toda a agência FMI (Força de Missão Impossível) é desacreditada. Por esse motivo, o Presidente lança a "Operação Fantasma", com vista a extinguir a mais especializada equipa de espiões. Agora, Hunt tem apenas uma alternativa: juntar alguns ex-agentes e, por sua conta e risco, limpar o nome da agência e impedir um novo ataque previsto para breve. Porém, para isso, ele terá de aprender a confiar em estranhos de motivações duvidosas... O quarto filme do franchise "Missão: Impossível" baseia-se na popular série norte-americana para televisão que estreou na década de 1960, com actores como Martin Landau, Barbara Bain e Leonard Nimoy. O filme marca a estreia de Brad Bird ("The Incredibles - Os Super Heróis" e "Ratatui") na realização de uma longa-metragem de acção real. A produção é assinada por Tom Cruise e J. J. Abrams (produtor da série de culto Perdidos). in Publico

Critica:
E se vos dissermos que é capaz de estar aqui o mais descontraído e mais estimável dos quatro filmes adaptados da série de televisão dos anos 1960 para maior glória de Tom Cruise? Confessamos ter um fraquinho muito especial pelo delírio levado aos limites do desvairo do segundo episódio (filmado por mestre John Woo), mas entregar o comando desta quarta fita a um cineasta vindo da animação é uma solução feliz para resolver a contradição-chave do “caderno de encargos”. A saber: a necessidade de fazer um veículo “sério” à medida do seu actor/produtor/astro de Hollywood, por um lado, e as manipulações narrativas das missões, que geralmente se borrifam na plausibilidade, por outro. Manter o equilíbrio não tem sido fácil, e Brad Bird, autor dos “Super-Heróis” e de “Ratatui”, consegue-o reforçando o lado “cartoonesco” de todas estas missões com a piscadela de olho de quem sabe que quanto melhor a ilusão melhor a implausibilidade passa, e concentrando-se numa gestão de ritmo e de narrativa ilustradas por uma exemplar clareza de encenação. (Michael Bay, por exemplo, podia aprender umas coisinhas com o modo como as sequências iniciais da prisão russa e do Kremlin são filmadas e montadas.) Melhor ainda, Cruise abdicou finalmente do seu protagonismo sisudo, e acede a partilhar o écrã com uma boa equipa de secundários escolhidos a dedo (Jeremy Renner, Simon Pegg e Paula Patton). Não se trata, longe disso, de um “blockbuster” perfeito: o episódio do Dubai e o duelo final no silo automóvel são espremidos até ao limite do ridículo, o vilão é um “MacGuffin” que só lá está a fazer figura de corpo presente, a construção em patamares de video-jogo é tão preguiçosa que até irrita. Mas isso não deve ignorar que a função primordial de um filme como “Operação Fantasma” é ser uma bugiganga colorida, brilhante e descartável para o Natal - e quanto a esse caderno de encargos, missão cumprida: a descontracção desenvolta e eficaz que Bird aplica torna-o num entretenimento descartável de topo de gama. E está-se mesmo a ver que, se este filme também cumprir a sua missão nas bilheteiras, um quinto episódio não há-de tardar uma loja de barbeiro...

Jorge Mourinha

Wednesday, 27 July 2011

Harry Potter, Os Talismãs da Morte 2

Apesar de tudo ... o final não foi assim tão surpreendente. A saga terminou e temo que em declínio.


Titulo original: Harry Potter and the Deathly Hallows Part II
De: David Yates
Com: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, John Hurt, Alan Rickman, Michael Gambon, Helena Bonham Carter, Maggie Smith
Genero: Acção, Aventura, Fantasia
Classificacao: M/12

EUA/GB, 2011, Cores, 130 min. (IMDB)

O fim da saga do pequeno feiticeiro criado por J.K. Rowling, com a segunda parte do derradeiro capítulo. Harry, Ron e Hermione (Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson) prosseguem a sua demanda por encontrar e destruir os Horcruxes de Voldemort que o tornam imortal ao mesmo tempo que têm de escapar às garras dos implacáveis Devoradores da Morte e ainda manter os elos que os unem. Enquanto isso, a luta entre as forças do Bem e do Mal dá origem a uma batalha sem precedentes no mundo mágico que culminará num último duelo entre Lord Voldemort (Ralph Fiennes) e Harry Potter. Segundo a profecia, nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver e será agora, na batalha mais negra da sua vida, que o jovem feiticeiro que sobreviveu à maldição da morte terá de fazer o sacrifício final em troca da salvação do mundo....
Mas este desfecho não será simples e virá a revelar alguns segredos bem guardados durante quase duas décadas.
O quarto filme da saga pelas mãos de David Yates conta ainda com a participação de Michael Gambon, Alan Rickman, John Hurt, Helena Bonham Carter, Maggie Smith e Emma Thompson.in Publico

Critica:
É aquela altura do ano em que o Harry Potter está por todo o lado. Literalmente por todo o lado: só para Portugal vieram 95 cópias, são 95 ecrãs ocupados com as aventuras do "pequeno feiticeiro" (que, entretanto, já não é tão pequeno como isso, cresceu, é um marmanjão, e não é líquido que "a saga" saiba lidar muito bem com o facto).

Como o dinheiro comanda a vida, também é daquelas raras alturas do ano em que um filme se faz "notícia": vem aí o Harry Potter, vem aí o Harry Potter, naquele misto de frenesi e indiferença com que os telejornais falam de tudo, a "saga mais lucrativa de sempre". Podiam dizer "a mais popular", "a mais querida", "a mais entusiasmante", mas não, dizem "a mais lucrativa". Miseravelmente remediados como somos, resta-nos ficar esmagados com tanta competência na bilheteira.

A talhe de foice, e para que se tenha uma noção das somas envolvidas: em 1937, com a Branca de Neve e os Sete Anões, Walt Disney precisou de um milhão e meio de dólares para influenciar o imaginário de todas as gerações futuras de todo o mundo; em 2011, a empresa sai mais cara: Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2 fez-se por 250 milhões de dólares. Rentabilizar isto não se faz de ânimo leve, exige estratégia e disciplina quase militares, recompensadas com seis mil milhões de dólares (números gerais da "saga").

Acontecimento económico, acontecimento empresarial, acontecimento jornalístico (por supuesto): não se contesta, mas nada disto é sinónimo de um acontecimento "crítico" nem mesmo, passe o palavrão, "cinéfilo". Só que, coisa muito do nosso tempo, se estão um elefante e uma formiga, que se lixe a formiga, imperdoável é não se falar do elefante, que é grande, poderoso e detesta que o ignorem. Consequentemente, lá vamos ao encontro do "elefante", de mente aberta (ao contrário, portanto, do espírito de "fã", que ainda não viu mas já adorou), em sessão pública numa sala que, de resto, estava às moscas (se calhar, se calhar, 95 cópias ainda é um bocadinho de mais).

"Tudo acaba", diz a tagline com que o filme tem sido promovido, e esse é um pensamento reconfortante durante as duas horas e tal de projecção. Mas será mesmo assim? Há um conspícuo grande plano com um número 9 na cena final - não nos admirava que fosse maneira cifrada de dizer que mais dia, menos dia estala por aí um son of Harry Potter ou coisa que o valha. Tudo acaba, tudo morre: há muita morte, e muitos mortos (quase todas as personagens secundárias da saga, os antagonistas como os coadjuvantes do herói), nestes Talismãs da dita, e esse é um aspecto minimamente curioso, até pensando numa relação com os "fãs" que foram crescendo com a série (tudo começou em 2001) e têm agora 20 anos, são adultos, e é como se o filme os expulsasse deste paraíso da fantasia e os devolvesse ao mundo real (e isto, juntamente com o tema do amadurecimento, é basicamente o tema do filme). Essa melancolia do fim, visualmente traduzida numa paleta que progressivamente vai eliminando a cor para se cerrar numa tonalidade cinza (sem favor, a fotografia de Eduardo Serra é o melhor do filme), é a única coisa que parece realmente "nova". O resto é a competência industrial do costume, uma narrativa convencional convencionalmente narrada, uma não-entidade ao leme (David Yates) para prevenir rasgos idiossincráticos, em suma, uma elegantíssima banalidade. A nós maça-nos, aos "fãs" entusiasma e certamente temos todos, uns como os outros, a nossa razão.

Luis Miguel Oliveira

Sunday, 10 April 2011

As Cronicas de Riddick

Não gosto das interpretações e a certo ponto o argumento não vale um chavo, mas há alguma coisa no ambiente que me agrada. Poderia ser uma obra de culto.


Titulo original: The Chronicles of Riddick
De: David Twohy
Com: Colm Feore, Thandie Newton, Vin Diesel
Genero: Thriller
Classificacao: M/12

Austrália/EUA, 2004, Cores, 110 min. (IMDB)

Riddick passou os últimos cinco anos de galáxia em galáxia a tentar eludir os mercenários que tentam apanhá-lo, pois tem a cabeça a prémio. Até que vai parar ao planeta Helion, uma sociedade multicultural que foi invadida por Lord Marshal, um déspota que quer subjugar os humanos. Encarcerado, ao tentar sair da prisão, Riddick acaba por ter de enfrentar Lord Marshal numa batalha que porá em risco toda a Humanidade
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Wednesday, 16 March 2011

O discurso do rei

Um filme capaz e bem conseguido. Mas filme do ano parece-me demais.


Titulo original: The King's Speech
De: Tom Hooper
Com: Colin Firth, Geoffrey Rush , Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Timothy Spall
Genero: Drama, Biografia
Classificacao: M/12

GB/EUA/Austrália, 2010, Cores, 118 min. (IMDB)

Desde os cinco anos que Bertie (Colin Firth), Duque de York e segundo filho do rei Jorge V de Inglaterra (Michael Gambon), sofre de gaguez, algo que sempre abalou a sua auto-estima. Depois do embaraçoso discurso de encerramento da Exposição do Império Britânico em Wembley, a 31 de Outubro de 1925, Bertie, pressionado por Isabel (Helena Bonham Carter), futura rainha-mãe e sua esposa, começa a consultar Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta da fala pouco convencional. Em Janeiro de 1936, o rei Jorge V morre e é o seu irmão Eduardo quem ascende ao trono até, menos de um ano depois, abdicar por amor a uma americana divorciada em favor de Bertie. Hesitante perante o peso da responsabilidade e obcecado em ser monarca digno do reino, o novo rei apoia-se em Logue, que o ajuda a superar a gaguez... Realizado por Tom Hooper ("Maldito United"), "O Discurso do Rei" inspira-se na história verídica do rei Jorge VI e é o filme favorito na corrida aos Óscares, estando nomeado para 12 categorias, entre as quais melhor filme, melhor actor (Colin Firth), melhor actor secundário (Geoffrey Rush), melhor actriz secundária (Helena Bonham Carter), melhor realizador e melhor argumento original.in Publico

Critica:
Há que distinguir entre "clássico" e "conservador", palavras que podem ter significados em comum mas não são necessariamente sinónimas. "O Discurso do Rei" é um filme clássico no modo como se articula de acordo com regras narrativas e padrões estéticos tradicionais, sem ser forçosamente conservador (os ângulos forçados com que Tom Hooper filma as suas personagens, enquadradas nas geometrias sociais que balizam a Inglaterra dos anos 1930, servem ao mesmo tempo para subverter o classicismo e para sublinhar o estatuto de "inadaptados" destas criações).
"O Discurso do Rei", história verídica do modo como o Duque de York, futuro Jorge VI de Inglaterra (e pai da actual rainha Isabel II), venceu a sua gaguez, é tão clássico que está mais próximo do telefilme de prestígio da BBC - o que está longe de ser um insulto porque tomara muitos (tele)filmes serem como a ficção de época britânica (e Hooper é rapaz formado nessa escola). Só que vai um passo muito longo de um telefilme acima da média a um êxito de bilheteira que parte à cabeça do pelotão dos Óscares. E aí a coisa já fia mais fino. Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Derek Jacobi, Timothy Spall, Guy Pearce são actores notáveis - mas não fazem mais do que aquilo que sempre fizeram (Firth ia tão melhor o ano passado no "Homem Singular" de Tom Ford, que explorava melhor a sua reserva natural do que este papel de aristocrata inglês que ele faz com uma perna atrás das costas). A história é bem contada e bem apresentada - mas daí a considerá-la "um dos melhores filmes do ano" vai um passo que só um marketing particularmente afinado permite. É um filme bem feito mas anónimo, cuja popularidade junto dos votantes dos Óscares e dos espectadores anglo-americanos se encaixa na perfeição numa ideia conservadora do cinema partilhada por muita gente: uma boa história, bem contada, com bons actores. Nada contra. Mas isso não chega para distingui-lo com os encómios que tem recebido.

Jorge Mourinha

Saturday, 12 March 2011

Época das Bruxas

Tão fraquinho e previsível ... e no entanto tem os ingredientes certos para uma bela saga ... pena.


Titulo original: Season of the Witch
De: Dominic Sena, Peter Goddard
Com: Nicolas Cage, Ron Perlman, Stephen Graham
Genero: Terror, Aventura
Classificacao: M/16

EUA, 2010, Cores, 95 min. (IMDB)

Depois de anos de cruzada na Terra Santa, os cavaleiros Behmen (Nicolas Cage) e Felson (Ron Perlman) regressam a Inglaterra, onde descobrem um país assolado pela Peste Negra. Acusados de deserção, só uma missão os pode livrar do cárcere: escoltar uma jovem acusada de bruxaria que todos acreditam ser a responsável pela epidemia. O destino é um mosteiro isolado nas montanhas, onde ela será julgada pelos monges e purificada num ritual religioso... Uma aventura medieval realizada por Dominic Sena ("60 Segundos", "Operação Swordfish") in Publico

Friday, 28 January 2011

A Queda

Um monstro que afinal não passava de um ser humano. Um retrato realista e angustiante dos últimos dias do III Reich. Bruno Ganz tem um papel soberbo como Hitler que flutua, pertubadoramente, entre o velhote circunspecto e o Fuher implacável e demoníaco. Gostei do retrato das diversas figuras do Reich que só conhecia dos livros ou dos filmes estereótipados. Gosto de filmes assim, crus, só com sal.


Título original: Der Untergang
De: Oliver Hirschbiegel
Com: Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz, Corinna Harfouch
Género: Drama, Guerra
Classificação: M/16

Alemanha, 2004, Cores, 150 min. (IMDB)

Baseado nas memórias da secretária de Hitler, Traudl Junge, e na pesquisa do historiador Joachim Fest, o filme recupera os últimos 12 dias do ditador alemão, aqui protagonizado por Bruno Ganz. A 20 de Abril de 1945, Hitler refugia-se num bunker situado sob a Chancelaria, em Berlim. Na superfície, os constantes bombardeamentos da artilharia russa anunciam a chegada do inimigo. A capital alemã encontra-se reduzida a escombros e os combates de rua começam. Apesar do esforço dos poucos soldados, ajudados pelas milícias populares e por crianças da Juventude Hitleriana, a derrota é inevitável. No interior do bunker, Hitler faz os seus últimos preparativos. Com ele encontram-se, entre outros, Eva Braun, a sua companheira, Josef Goebbels, Ministro da Propaganda, e a mulher deste, Magda.in Publico

Crítica:
Há um momento, no princípio de "A Queda - Hitler e o fim do III Reich", em que o realizador Oliver Hirschbiegel denuncia ao que vem o seu filme. Um movimento de câmara acompanha Hitler, que se prepara para entrar para uma sala onde aguardam vários oficiais. Na altura em que fica de costas para a câmara, esta mergulha para um rápido reenquadramento que deixa, por um ou dois segundos, as mãos tremelicantes de Hitler/Bruno Ganz em grande plano.

O trejeito "voyeurístico" contido neste reenquadramento é quase um "raccourci" do olhar que o filme tem para dar sobre Hitler. A atracção do "interdito", em primeiro lugar: espreitar os últimos dias de Hitler com o fascínio de quem cruza um espaço proibido. A "fetichização" do ditador, depois: "A Queda" não ultrapassa o imediatismo de um efeito automático, agitando um boneco de Hitler antevendo logo a prostração que ele induzirá no espectador (não é muito diferente de uma lógica de viagem num comboio-fantasma). Finalmente, a sinalização do lado humano, vulnerável e doente do Hitler envelhecido, numa composição "realista" de pormenor, quase como crónica da performance de um actor.
Provavelmente é preciso ser-se alemão (ou israelita) para não se achar exagerado o estardalhaço à volta do filme; mas ao mesmo tempo ele faz parte desse estardalhaço, na medida em que não é capaz de responder à questão de fundo: que fazer, 60 anos depois, com Hitler? Como o retratar? Demonizá-lo ou reduzi-lo à sua mais simples (e humana) expressão? Esta incapacidade de resposta sente-se no filme sobretudo se pensarmos no seu Hitler como o Hitler mais indefinido de todos quantos já foram retratados em cinema. É um Hitler "neutro", sobre o qual não recai nenhum olhar estruturante - num filme em que ele é o centro de tudo, este é um "não-retrato" de Hitler. É uma lógica simples (e simplista): agita-se um espantalho e fica-se à espera das reacções. Sensacionalista, nesse sentido.

Curiosamente, este poder do "espantalho" de Hitler podemos vê-lo condensado num filme de 1942, "To Be Or Not To Be" de Ernst Lubitsch, onde o genial cineasta utilizava (com propósitos de sátira) o "efeito de real" provocado pela presença de um actor disfarçado de Hitler para salientar (e desmontar) essa prostração. Em 2005, "A Queda" mostra que, num certo sentido, ainda estamos em 1942, e que uma imagem de Hitler é sempre "transparente": não se vê a imagem, mas Hitler ele próprio. E que não se diga que a consciência disto não fez parte do jogo - a esse respeito, bem jogado - de Hirschbiegel.

Bruno Ganz, no papel do "espantalho", é pela sua parte irrepreensível. O seu trabalho de composição é notável, mesmo (ou sobretudo) quando parece mais perdido dentro de Hitler do que Hitler parecia perdido dentro do "bunker" em Abril de 1945. Mas cabe aqui lembrar o "Moloch" de Alexandr Sokurov, o primeiro filme da trilogia do cineasta russo dedicada a vultos da tirania no século XX (filmou depois Lenine e Hirohito): se o problema deste Hitler é ser "humano", então ainda bem que poucos viram o de Sokurov. Mas o de Sokurov era claramente um "retrato", ou seja, um olhar e uma caracterização conduzidos em determinada direcção - o fascínio de Sokurov, no entanto, era semelhante ao que parece motivar o de Hirschbiegel: o facto de Hitler ter sido quem foi e ter feito o que fez e ser, ao mesmo tempo, "um de nós". "Moloch" é um filme em recusa da "excepcionalidade" de Hitler, inclusive em recusa da sua "monstruosidade"; os problemas figurativos (e o afastamento da "neutralidade") ultrapassavam-se porque Sokurov não se detinha no "realismo" e acelerava rumo ao "hiper-realismo": era um Hitler de pele verde de tão macilenta, farrapo humano prisioneiro de todas as doenças, reais ou imaginárias.

Hischbiegel, por seu lado, é desajeitado até no desenho das figuras secundárias (mas proeminentes) do III Reich. Goebbels, apagadíssimo, tem rosto de "cartoon" (sem nenhum do carisma que o original devia ter); o arquitecto Albert Speer aparece a corporizar se não o nazi "bom", pelo menos o nazi "lúcido"; sobre Eva Braun o olhar tem a mesma indefinição do olhar sobre o ditador (mas Eva é mesmo mais indefinível). Outra mulher, Magda Goebbels, acaba por ser a personagem mais perturbante do filme, e a cena da morte dos filhos é a melhor de "A Queda" (mesmo que para ser verdadeiramente boa devesse ser apenas uma elipse). Nota final: com os seus problemas de olhar "estruturante" a revelarem-se ainda na relação com os espaços (o do "bunker" e o da "superfície"), e ainda com um excesso de simbologias redentoras (o miúdo com que o filme acaba, e que desde cedo se percebeu que tinha reservado o papel de imagem da "nova Alemanha"), é um filme que põe sempre questões interessantes, e é um filme interessante por isso mesmo. No fim, se persistir algum incómodo, pode-se ir buscar o melhor antídoto, e rever o Adenoid Hynkel do "Grande Ditador" de Chaplin. Como alguém disse, um nazi que em 1942 já tivesse visto o Chaplin e o Lubitsch percebia que o III Reich estava condenado: nada que se prestasse assim à ridicularização podia ter grande futuro. Mesmo que entre 1942 e 1945 se tenham passado demasiados anos.

Luís Miguel Oliveira

Wednesday, 12 January 2011

District 9

Gostei muito. Uma história original e bem engendrada. Um classe "B" que não fica nada atrás de nenhum outro.


Título original: District 9
De: Neill Blomkamp
Com: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt
Género: Ficção Científica, Thriller
Classificação: M/16

EUA/NZ, 2009, Cores, 112 min min. (IMDB)

Em 1990, uma nave aterra em Joanesburgo, África do Sul, com um grupo de seres extraterrestres. Sem saber o que fazer a essas criaturas potencialmente perigosas, as nações de todo o planeta decidem enclausurá-las num gueto chamado Distrito 9, controlado pela maior empresa de fabricação de munições, denominada MNU (Multi-National United).
Vinte anos depois, sem qualquer hipótese de regressar a casa, as criaturas continuam aprisionadas no Distrito 9, que se transformou num autêntico campo de refugiados. A única relação que mantêm com os humanos é vivida na clandestinidade, numa espécie de mercado negro. Mas a MNU tem como objectivo a produção de uma arma de última geração e, para isso, envia ao local Wikus van der Merwe (Sharlto Copley), um agente cuja missão é estudar a tecnologia militar desenvolvida e transferir os alienígenas para um novo gueto, o Distrito 10.
É então que, ao manusear um objecto extraterrestre, algo lhe acontece que altera a sua composição genética tornando-o numa espécie híbrida. Esta transformação permite-lhe usar as tão cobiçadas bioarmas, que para funcionarem precisam de ADN alienígena. Van der Merwe fica por isso sob custódia dos cientistas da MNU para testes laboratoriais. E, depois de compreender o que lhe está a acontecer e conseguir escapar do laboratório, o agente conclui que o único possível refúgio é o Distrito 9, onde poderá encontrar uma forma de reverter o processo de mutação que está a acontecer ao seu corpo.
Realizado pelo sul-africano Neill Blomkamp, contou com Peter Jackson ("O Senhor dos Anéis", "King Kong") como produtor e 30 milhões de dólares de orçamento.

in Publico

Crítica:
Os alienígenas são nossos amigos

É um grande filme de género sobre o lado feio do mundo em que vivemos. Uma das grandes surpresas do ano.

De vez em quando, Hollywood leva um chuto que - como se costuma dizer - até vai de lado: gasta fortunas em filmes baseados em linhas de brinquedos e que correspondem à ideia de um departamento de contabilidade e "marketing" (mas não de um espectador...) do que é um "blockbuster" (sim, estamos a falar de vocês, "Transformers" e "G. I. Joe"), e deixa-se comer por um filmezinho feito à margem do radar por gente de quem nunca se ouviu falar, que consegue ter mais cabeça, mais emoção e mais acção em dez minutos do que esses pretensos "blockbusters" em duas horas ou mais. "Distrito 9" veio comer as papas na cabeça a todas as apostas de Verão dos grandes estúdios e o mais espantoso é que esta produção independente rodada por tuta e meia na África do Sul seja também um extraordinário filme sobre o mundo em que vivemos - como aliás é apanágio dos grandes filmes de género e de série B, em cuja linhagem "Distrito 9" se insere honrosamente.

O cenário é uma favela de Joanesburgo que vai começar a ser desmantelada e cujos habitantes vão ser transportados para o Distrito 10, que tem o aspecto de um campo de refugiados. Mas faz sentido que assim seja, porque quem mora neste bairro da lata são de facto refugiados - de outro planeta. Extra-terrestres cuja nave espacial, avariada e aparentemente impossível de ser consertada com a tecnologia humana, veio "dar à costa" sobre a metrópole sul-africana há vinte anos, e que acabaram por nunca ser verdadeiramente assimilados pela sociedade, que os explora, humilha e despreza como "gafanhotos". A metáfora evidente é o "apartheid", mas pode ser esticada para "o outro", "o diferente", "o que não é como nós", "o imigrante" - o que torna o primeiro filme de Neill Blomkamp, publicitário sul-africano de 29 anos, num retrato distorcido de um mundo onde a globalização está a andar depressa demais para muito boa gente (e o seu sucesso nos EUA, país onde neste momento a questão do outro e da diferença é central ao próprio debate sociopolítico, é mais significativo do que parece).
Wikus van de Merwe, um burocratazinho cobarde encarregue do processo de transferência dos extra-terrestres para o novo campo de refugiados, entra acidentalmente em contacto com uma substância orgânica que começa a alterar o seu ADN e o torna num mutante preso no limbo entre dois mundos e extremamente valioso para a multinacional onde trabalha, forçando-o a unir esforços com um dos extra-terrestres. Apesar de estruturado como um falso documentário (com depoimentos de experts e tudo) que retraça a história da difícil coabitação humanos-E.T.s e procura explicar os misteriosos acontecimentos iniciados com o processo de transferência para o Distrito 10, "Distrito 9" é um mutante inteiramente novo. Tal como as grandes séries B dos anos 1950 e 1960 transmutavam os medos do mundo real em ficções de medo, "Distrito 9" compacta um enorme "mash-up" de sátira política, comentário social, teorias da conspiração, estéticas pós-modernas e figuras obrigatórias do cinema de género num filme que se ancora numa vertente profundamente humana.
A odisseia de Wikus, o burocrata que se procura agarrar à sua humanidade no exacto momento em que todos os outros lha recusam, tem algo da dimensão trágica da "Mosca" de Cronenberg (veja-se o extraordinário plano final) cruzada com o comentário político de um Ken Loach, mas o todo disfarçado por entre um filme de acção superiormente gerido, à qual a opção pela câmara "vérité" (substituindo a montagem ultra-rápida) vem dar uma adrenalina e uma urgência ausentes da maior parte da concorrência de grande orçamento.
"Distrito 9" apenas vem confirmar como o cinema de género é muito menos "menor" do que a maior parte das pessoas acham. Que o filme tenha sido "apadrinhado" por Peter Jackson, cineasta que ele próprio transcendeu as suas origens de género sem as trair (e que permitiu a Blomkamp fazer o seu filme em absoluta liberdade e fora do radar dos estúdios), é apenas mais uma prova de que não devemos olhar de esguelha para os alienígenas - temos muito a aprender com eles. Mesmo que Hollywood não aprenda a lição.

Jorge Mourinha

Thursday, 9 December 2010

Jogo Limpo

Ainda estou indeciso, não sei se vi um artigo de intervenção contra o modelo de governo, ou um artigo publicitário ao profissionalismo da CIA.


Título original: Fair Game
De: Doug Liman
Com: Naomi Watts, Sean Penn, Ty Burrell
Género: Acção, Biografia
Classificação: M/12

EUA, 2010, Cores, 104 min. (IMDB)

Valerie Plane (Naomi Watts), uma agente secreta da CIA, comanda uma investigação sobre a presença de armas de destruição maciça no Iraque. O seu marido, o diplomata Joe Wilson (Sean Penn), é levado para o interior da investigação numa tentativa de comprovar que Saddam Hussein comprava, a Níger, urânio para fins militares, algo que se veio a comprovar falso. Quando a Administração Bush ignora a sua investigação e entra em guerra, invadindo o Iraque, o diplomata escreve um artigo no "New York Times", em que acusa o governo de má-fé. Pouco depois, e como consequência dos actos do seu marido, a identidade de Valerie como agente secreta é revelada, ficando com toda a sua vida desacreditada. Assim, de um momento para o outro, uma mulher que tinha uma vida estável, perde toda a credibilidade...
Realizado por Doug Liman ("Identidade Desconhecida", "Mr. & Mrs. Smith", "Jumper") é baseado nas memórias da ex-agente Valerie Plane que, em 2003, se viu envolvida num escândalo diplomático, sendo alvo de uma campanha de desacreditação pelo próprio Governo norte-americano. in Publico

Tuesday, 7 December 2010

Imparável

Que surpresa... não dava nada por este filme e não é que dou por mim em pulgas por saber como tudo se ia resolver. Não sei como nem porquê, mas agarrou-me.

Título original: Unstoppable
De: Tony Scott
Com: Mark Bomback
Com: Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn, Ethan Suplee
Género: Acção, Drama
Classificação: M/12

EUA, 2010, Cores, 97 min. (IMDB)

Frank (Denzel Washington) é um engenheiro veterano de uma companhia ferroviária que, depois de 28 anos em serviço, está a pouco tempo de ser dispensado. Will (Chris Pine) é um maquinista recém-contratado, pouco motivado com o trabalho mas com noção do seu dever. Dois homens que, apesar de estarem em momentos opostos das suas vidas, terão os seus destinos cruzados quando um comboio de carga cheio de combustível e gás venenoso se dirige, desgovernado, a uma cidade de 100 mil habitantes, vaporizando tudo pelo caminho. Os dois terão assim de pôr de lado as suas diferenças e, em contra-relógio, arriscar tudo para evitar a catástrofe.
Com realização de Tony Scott ("Homem em Fúria", "Assalto ao Metro 1 2 3") e argumento de Mark Bomback, é baseado em factos verídicos ocorridos em 2001, no Ohio, EUA. in Publico

Crítica:
Um comboio descontrolado que transporta materiais perigosos em direcção aos subúrbios de Filadélfia, dois ferroviários que são a única esperança para evitar a catástrofe. Tudo na premissa grita filme de acção descartável empolado até à quinta casa em termos de orçamento e efeitos perfeito para desperdiçar uma tarde de fim-de-semana, "thriller" funcional à medida de vedeta em velocidade de cruzeiro.
Aqui entra a surpresa de ver Tony Scott, que não raras vezes se deixa levar pelo frenesi estiloso da velocidade gratuita sem outra função que não encher o olho, a elevar "Imparável" a um dos mais eficazes filmes de género hollywoodianos dos últimos anos, conseguindo invocar o espírito das grandes séries B dos anos 1950. O estilo eléctrico e epiléptico do realizador inglês é feito à medida desta história que ganha aceleração à medida que o comboio ganha velocidade, contada quase em tempo real e perfeitamente modulada por uma montagem firme.
Não é a primeira vez que Scott acerta - lembramo-nos de "Inimigo Público" e "Déjà Vu" como momentos em que o estilo e o filme estavam à altura um do outro - mas a absoluta despretensão de "Imparável", exercício de puro prazer na articulação do movimento, é capaz de o tornar no seu melhor filme em muito tempo.

Jorge Mourinha

Sunday, 5 December 2010

Homem de Ferro

Para mim o herói com mais pinta da Marvel a par com o Homem-Aranha. O filme em si pouco é para além de Downey Jr.


Título original: Iron Man
De: Jon Favreau
Com: Robert Downey Jr., Terrence Howard, Gwyneth Paltrow
Género: Acção, Aventura
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 127 min. (IMDB)

Adaptação para o cinema das histórias do lendário super-herói da Marvel, o Homem de Ferro. Robert Downey Jr é Tony Stark, um bilionário e um génio que, devido à sua mais recente invenção, é raptado e obrigado a construir uma arma de destruição devastadora. Mas, utilizando a sua inteligência e engenho, Tony constrói um fato armadura super-poderoso e consegue escapar ao cativeiro. Assume então a sua poderosa armadura e jura proteger o mundo como Homem de Ferro.in Publico

Sunday, 28 November 2010

O Lado Selvagem

"A verdadeira felicidade só existe quando partilhada", o final sublime, infelizmente trágico, de uma aventura idealista. Magistral. O mundo é belo ... saiam do sofá.


Título original: Into the Wild
De: Sean Penn
Com: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt
Género: Drama
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 140 min. (IMDB)

Recentemente licenciado e com um brilhante futuro à sua frente, Christopher McCandless (Emile Hirsch), um jovem de 22 anos, opta por prescindir da sua vida privilegiada e parte em busca de aventura. A sua viagem transforma-o num símbolo de resistência para inúmeras pessoas. Mas quem era Christopher McCandless? Um aventureiro heróico ou um idealista ingénuo, um Thoreau rebelde dos anos 90 ou mais um filho americano perdido a vaguear? Um homem que arriscava tudo ou uma trágica figura a lutar com o precário equilíbrio entre o Homem e a Natureza?
Realizado por Sean Peen a partir do aclamado livro-êxito de Jon Krakauer, retrata cada etapa da viagem pela América de McCandless e as personagens coloridas que vai encontrando e que vão moldando o seu carácter. in Publico

Thursday, 25 November 2010

Harry Potter e os Talismãs da Morte

Longo e deseperadamente indeciso. Imagino que seja mesmo esta a sensação de impotência que o realizador queria passar antes do, esperado, crescendo final, mas, cansou-me.


Título original: Harry Potter and the Deathly Hallows
De: David Yates
Com: Steve Kloves
Com: Emma Watson, Daniel Radcliffe, Rupert Grint, John Hurt, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter.
Género: Aventura, Fantasia
Classificação: M/12

EUA/GB, 2010, Cores, 147 min. (IMDB)

O 17.º aniversário de Harry Potter aproxima-se e com ele o fim da protecção que a casa dos seus tios muggles lhe confere. Com Voldemort cada vez mais poderoso e perante os sucessivos fracassos do Ministério, apenas os membros da Ordem de Fénix lhe poderão valer e tirá-lo de Privet Drive em segurança. Mas nada corre como o previsto. E Harry compreenderá, da pior maneira, que a missão deixada por Dumbledore - descobrir e destruir os Horcruxes, objectos que escondem fragmentos da alma do Senhor das Trevas, antes do golpe final - terá de ser cumprida só por ele. O que ele ainda não sabe é que Ron e Hermione têm um plano...
Primeira parte do derradeiro capítulo da saga potteriana, o filme segue os três amigos durante a sua perigosa fuga aos Devoradores da Morte e a sua luta por se manterem fiéis uns aos outros, ao mesmo tempo que os Talismãs da Morte (objectos que evitam a morte) desviam Harry do seu caminho de encontrar os Horcruxes. Pelo meio, desvendam-se mistérios que perduram desde o início da série e prepara-se a última batalha, da qual só um poderá sair vivo.in Publico

Thursday, 26 August 2010

Salt

Para mim morno e sem Salt. Saltamos de uma primeira parte em que tudo parece complicado e as perseguições se sucedem, para uma acção quase cronometrada e com sabor a super-heroi... Dá para passar o tempo.

Título original: Salt
De: Phillip Noyce
Com: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Daniel Olbrychski, Andre Braugher
Género: Acção
Classificacao: M/12

EUA, 2010, Cores, 97 min. (IMDB)

Evelyn Salt (Angelina Jolie) é uma das mais bem treinadas agentes da CIA. Quando o desertor russo Vassily Orlov (Daniel Olbrychski) aparece na agência, declarando que ela fez parte de um programa secreto do Governo soviético chamado KA, que treinava crianças para se tornarem assassinas, ela rapidamente compreende que a fuga é a única solução. Assim, servindo-se dos longos anos de experiência como agente infiltrada, consegue escapar aos seus perseguidores. Agora, com os próprios colegas Ted Winter (Liev Schreiber) e Peabody (Chiwetel Ejiofor) no seu encalço, ela irá avaliar todas as pistas e fazer de tudo para provar a sua inocência. Mas será Salt quem julga ser? Que verdades estarão por revelar?
Um "thriller" de acção realizado por Phillip Noyce ("O Coleccionador de Ossos", "Calma de Morte", "O Americano Tranquilo").in Cinecartaz Publico

Crítica:
A espia que saiu do frio

A simples presença de Angelina Jolie é perfeita para uma descomplexada série B de espionagem exemplar das virtudes de um profissionalismo que anda a fazer muita falta

Há que dizê-lo com frontalidade: graças a Deus que não foi Tom Cruise, para quem "Salt" foi originalmente desenvolvido, a interpretá-lo. Não somos só nós a dizê-lo - Karina Longworth, na "Village Voice", já o fez quando o filme estreou nos EUA em fins de Julho -, mas a verdade é que Angelina Jolie é perfeita para o papel ambíguo de um possível agente duplo, resquício da Guerra Fria transposto para os nossos dias.

É um caso em que a mudança de sexo correu às mil maravilhas e a mulher que daí resultou é muito mais interessante do que o homem alguma vez teria sido: porque a nossa "crença" na personagem depende inteiramente de acreditarmos nela, mais do que como um super-espião capaz de tudo, como alguém que passou a vida a esconder-se atrás de máscaras e que dá por si subitamente vulnerável. Estamos a ver Cruise a ser vulnerável? Bem me parecia que não. Estamos a ver Jolie? Nunca ela fez outra coisa, e ainda por cima sem que isso afecte a força e a determinação que ela projecta - antes reforçando-as.

Jolie é uma criatura de contradições e paradoxos, sedução e mistério - e isso torna-a perfeita para o papel de uma agente da CIA subitamente acusada de ser na verdade uma agente russa infiltrada desde miúda à espera de ser "acordada" para levar a cabo a sua missão. Não se pode dizer que "Salt" não seja derivativo: o guião de Kurt Wimmer remete, ao mesmo tempo, para uma série B pouco recordada dos anos 70 com Charles Bronson, "Telefone", para o recente tecno-"thriller" "Olhos de Lince", para os filmes de espionagem clássicos dos anos 60, para os "thrillers" paranóicos dos anos 70, para a série "Bourne" (que se parece ter tornado numa espécie de "matriz" de muito do cinema de acção contemporâneo).

Mas, nas mãos do veterano australiano Phillip Noyce, esse lado derivativo é trabalhado usando o livro de virtudes da série B e convertido em mais-valia: eficácia, economia, cartas na mesa, desembaraço, profissionalismo, uma consciência absoluta do que se está a fazer, para quem o está a fazer e com quem o está a fazer. "Salt" não engonha nem perde tempo com o que não vem ao caso, sabe o que tem a fazer e fá-lo sem se engasgar - com, pelo meio, uma primeira meia-hora magistralmente construída e gerida que é uma lição de filmar e montar acção sem ter de recorrer a efeitos visuais mais ou menos artificiais. Numa paisagem hollywoodiana em que estas virtudes são cada vez menos valorizadas, ver um filme "à moda antiga" como este é reconfortante. Que esse filme tenha caído nas mãos da actriz perfeita para a sua história apenas o torna ainda mais recomendável.

Jorge Mourinha

Wednesday, 19 May 2010

Robin Hood

O filme até estava a ir bem até à cena da invasão a lembrar um desembarque na Normandia do séc XIII. As soluções para isto são tantas que acho imcompreensível que Riddley Scott tenha ido por aqui. Vale a pena pela imagem mais realista e por Lady Marion ... mas à justa.

Título original: Robin Hood
De: Ridley Scott
Com: Russell Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt
Género: Aventura, Drama
Classificação: M/12

EUA/GB, 2010, Cores, 148 min. (IMDB)

Inglaterra, século XIII. Robin Longstride (Russell Crowe) toda a sua vida prestou serviço leal ao rei Ricardo I, de cognome Coração de Leão, mas hoje, após a morte do grande soberano, o país atravessa uma grave crise nas mãos do Príncipe João(Oscar Isaac) transformando Nottingham numa cidade saqueada não apenas pelos governantes mas também pelo próprio xerife local (Matthew Macfadyen). Ao encontrar o amor em Lady Marion (Cate Blanchett), na esperança de merecer a sua mão e salvar a população de toda a iniquidade, ele vai criar um grupo de mercenários justiceiros, cujas capacidades guerreiras só se poderão comparar à sua alegria de viver. Assim nascerá a lenda de Robin Hood, o grande herói fora-da-lei que, roubando aos ricos para dar aos pobres, devolveu a glória e a liberdade ao país que o viu nascer.in Publico

Crítica:
Robin Hood antes da lenda

Riddley Scott joga a histeria da câmara como compensação para a ausência de espessura mítica do seu Robin dos Bosques: é a principal imagem de marca do filme, e também a sua principal limitação

O mito de Robin dos Bosques possui uma larguíssima fortuna cinematográfica que podemos radicar no veículo concebido para as acrobacias atléticas do grande Douglas Fairbanks, realizado por Allan Dwan, em 1922, no qual se figurava uma longa sequência de um torneio medieval, tropo incontornável do "swashbuckler" como género, a preceder a partida de Ricardo Coração de Leão para as cruzadas. No entanto, o filme que constitui a matriz para quase todas as variações modernas (cinematográficas ou televisivas) é a obra-prima da Warner Bros, "As Aventuras de Robin dos Bosques" (Michael Curtiz, 1938), em que, num glorioso tecnicolor, se cunhavam as características fundamentais das histórias da Floresta de Sherwood: o carisma aventuroso romântico do herói (genial Errol Flynn), as flechadas certeiras em alvos de cartão e inimigos, uma Lady Marian angelical confiada a Olívia de Havilland, um trio inesquecível de vilões, progressivamente tragicómicos, um Rei Ricardo idealizado, um Frei Tuck glutão e belicoso e, sobretudo, uma ligação directa ao imaginário oitocentista, desde o romance histórico de Walter Scott às vinhetas vitorianas de uma Idade Média herdeira das baladas medievais ou das configurações pré-rafaelitas. Todas as versões posteriores, com a possível excepção de "A Flecha e a Rosa" (Richard Lester, 1976, com Robin e Marian envelhecidos e decadentes), partilhavam desta concepção global, mais lendária do que histórica, feita de reconhecíveis fugas, lutas, amorosos encontros e desencontros.




Esta introdução torna-se fulcral, porque a recente versão de Ridley Scott, revisionista chamar-lhe-ão alguns, opta por uma perspectiva totalmente diferente: em vez do regresso de Ricardo, a apaziguar os confrontos entre normandos e saxõe,s ou da recuperação do estatuto perdido de Robin of Loxley rumo à felicidade eterna dos amantes, partimos da morte do rei, parecemos estar mais próximos da "verdade histórica" com a tentativa da instauração da Magna Carta, e o filme acaba (preparação antecipada de uma sequela?), depois de mais de duas horas de movimentada acção, onde deveria começar a lenda de Sherwood.

Robin (Longstride de sua graça) é filho de um pedreiro, fazendo-se passar por nobre e aproximando-se do velho "Sir" Walter Loxley (o indestrutível Max Von Sydow), Marian (Cate Blanchett de novo em territórios históricos, depois de Isabel I) é uma desmazelada e voluntariosa viúva do verdadeiro Robert Loxley, empenhada em sobreviver das suas terras em tempo de crise, Eleanor de Aquitânia tem um papel activo na acção (mais perto de outra ficção co-relativa, "Um Leão no Inverno", com Eileen Atkins na personagem que Katharine Hepburn tornou sua), a Inglaterra está ameaçada por uma invasão francesa, o vilão principal, Godfrey (um façanhudo Mark Strong) não faz parte do cânone aventuroso tradicional, João Pequeno e Will Scarlett apenas aparecem como companheiros de cruzadas, o Xerife de Nottingham possui um papel lateral, e Frei Tuck cria abelhas e fabrica hidromel.

Dito isto, e apesar da fotografia soturna de John Mathieson, nos costumeiros "tons de caca, tremoço e vomitado" (que saudades do tecnicolor de tempos idos!), a forçar uma nota "realista" e feiosa, não se pense que "Robin Hood" não exibe emoção a rodos e façanhas aventurosas para todos os gostos: batalhas, emboscadas, duelos à espadeirada, chuvas de setas, assaltos a castelos medievais, estranhas invasões de praias desertas, com proezas subaquáticas (a lembrar um "O Resgate do Soldado Ryan" de outros tempos) e sádica violência sobre os camponeses, quase a citar o "peplum" italiano mais primário. E neste amálgama de condimentos, filmados "à la Ridley Scott", ou seja cruzando efeitos publicitários, estratégias televisivas, planos de grua vertiginosos ou câmaras lentas (felizmente poucas), reside a imagem de marca do filme e a sua principal limitação: ao querer trazer à liça a memória de um certo cinema recente - de "Braveheart" a "Gladiador" ou "Rob Roy" -, Scott joga com a histeria da câmara, a fim de colmatar a ausência da espessura mítica, que fez de Errol Flynn "o Robin Hood" cinematográfico por excelência.

Nos ombros avantajados de Russell Crowe, igual a si próprio, repousa a tarefa de conduzir o projecto a bom porto: imperturbável, machão (não faltam as indispensáveis cenas de nu parcial), castigador e possante, o australiano (como Flynn, curiosamente) modela o herói à sua "persona" pesadona e, atrevíamo-nos a dizer, anti-romântica, não sem que esboce, como pode, a sua aproximação ao alvo amoroso, algo masculinizado pela intervenção de Blanchett, de armadura a rigor, na batalha da praia. Desilusão? Sim, sobretudo se permanecermos fiéis ao triunfo da lenda sobre a "verdade histórica" e a um certo conceito da Hollywood que não volta mais, mas esperávamos muito pior desta tentativa de modernizar o mito (desmitificando-o), de construir um Robin dos Bosques do século XXI, destinado a um público-alvo sem memória fílmica para trás dos anos 70. Se compararmos com o "travesti" de Kevin Costner, ao som de Brian Adams (aqui temos uma versão de canto céltico, uma espécie de sub-Enya), ou com a recente série da BBC, não ficamos a perder assim tanto. Só temos que reconhecer que os tempos mudaram e o cinema enveredou por caminhos híbridos sem retorno previsível

Mário Jorge Torres

Thursday, 11 March 2010

Alice no País das Maravilhas

Estava à espera de tanto mais. Sou fã de Tim Burton e para mim esta é a sua obra com argumento menos conseguido, estava à espera de tanto mais. O pacote visual é impressionante mas não o suficiente para que o script insonso passe despercebido. Adorei o Chesire Cat e a rainha de copas. Jonhy Deep nem por isso. 3D não me convence.

Título original: Alice in Wonderland
De: Tim Burton
Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Christopher Lee, Anne Hathaway
Género: Aventura
Classificação: M/12

EUA, 2010, Cores, 108 min. (IMDB)

Alice (Mia Wasikowska), agora uma rapariga de 19 anos, persegue um pequeno coelho e, tal como dez anos antes, entra na magia do País das Maravilhas. Aí, ela vai reencontrar os seus velhos amigos: o Coelho Branco (Michael Sheen), Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas), a Lagarta Absolem (Alan Rickman), o Gato Cheshire (Stephen Fry) e o extravagante e dedicado Chapeleiro Louco (Johnny Depp).
Mas o reencontro não é totalmente feliz: desde a sua partida, o pequeno lugar tem vivido dias sombrios sob o jugo da Rainha Vermelha (Helena Bonham-Carter) que, contra a vontade de todos, se apoderou do trono. O regresso de Alice parece um último reduto de esperança para todos. E, agora, ela e os seus companheiros terão de seguir o seu destino e travar uma guerra jamais imaginada. Será Alice capaz de devolver a alegria à terra de todas as maravilhas?
Inspirado pelos clássicos infantis "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas" e "Alice do Outro Lado do Espelho", Tim Burton realiza uma espécie de sequela das histórias de Lewis Carroll. A banda sonora, muito aguardada pelos fãs, terá dois álbuns: um composto por Danny Elfman e outro - "Almost Alice" - constituído por 16 faixas que junta a música final do filme "Alice", escrita e composta por Avril Lavigne, com outras de vários artistas inspirados pelo filme, incluindo All American Rejects, 3OH!3, Robert Smith dos The Cure, Franz Ferdinand e Shinedown.
in Publico

Crítica:
Manicómio

Isto é um País dos Horrores, vivido (ou criado) no limiar da suportável desagradibilidade

Que Tim Burton pegue em Lewis Carroll não é por certo estranho nem extraordinariamente inesperado, porque o universo do escritor inglês sempre esteve à distância de um espelho do do realizador americano ("americano", mas em processo de anglicização, como nos últimos filmes se vinha vendo e este não desmente, bem pelo contrário). Que Carroll se ofereça assim à "burtonização" talvez seja mais digno de nota: Burton apropria-se de Alice e do País das Maravilhas sem fricção, uma espécie de "ocupação" pacífica e consentida, sem precisar de disparar um tiro. Tudo é orgânico e harmónico, numa sobreposição perfeita que torna inútil (ou pelo menos pouco profícuo) o exercício de dissecação.




Distinguir "isto é Burton" e "aquilo é Carroll": que importa, se a coisa se faz una? Diríamos que Burton pega - à letra - numa das características do livro de Carroll, o facto de ele se dirigir primordialmente à imaginação do leitor. E que é recorrendo à sua "imaginação de leitor" que Burton constrói a sua "Alice". A imaginação de Burton, conhecemo-la bem, e seguramente a reconhecemos aqui (donde, a impressão de familiaridade que já descrevemos). Surpresa? Surpresa nenhuma, ou só - se nos pusermos a pensar nisso - que essa imaginação trabalhe num diálogo directo com a fonte carrolliana, e surja imediada - mesmo "despoluída" - por outras imaginações de "Alice". Enfim, não conhecemos todas - há uma versão de Jonathan Miller que anda por aí nas prateleiras dos DVDs de importação - mas este é um filme Disney (uma produção Disney) que é o perfeito negativo da versão Disney que enformou, em tanta gente de tantas gerações, uma visão de "Alice no País das Maravilhas".

E é o negativo disso porque (para além de questões de invenção visual) intensifica, em vez de atenuar, a dimensão mais perturbante do relato de Carroll. O absurdo daquilo tudo, a loucura daquelas personagens todas. É evidente que isto não é País das Maravilhas nenhum, é um País dos Horrores, vivido (ou criado) no limiar suportável da desagradabilidade. Atenção, por exemplo, à paisagem (algo inóspita, por vezes "lunar", ou a lembrar um "pós-apocalipse") ou às cores do céu (cinzento, muito "bleak" - como a meteorologia inglesa?...). E ao modo como este tratamento "atmosférico", em fundo do tratamento das personagens, salienta o óbvio: como sempre em Burton o "pesadelo" mal se distingue do "sonho", e por muito que a promoção de "Alice" pareça dirigir o filme a um público infantil, a quem Burton de facto se dirige é aos adultos. O outro lado do espelho é um inferno, grotesco e distorcido.

E as 3D? Digamos muito brevemente duas ou três coisas: que são usadas de maneira muito menos ostensiva do que em "Avatar" (muito menos cansativa, também), e que se nota uma relação mais coerente entre o seu uso e a própria composição espacial. E ainda que, trabalhando mais sobre pintura (ou "como pintura") do que Cameron, Burton se diverte, nalguns momentos, a anular o relevo, a transformar os corpos dos actores em silhuetas planas, a fazer "2D" dentro do "3D". No mínimo, é divertido e inteligente. O frabjous day!.

Luis Miguel Oliveira