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Thursday, 20 November 2008

O corpo da mentira

Realista quanto baste. Boas interpretações. Uma visão perturbadora do mundo actual e do potêncial falhanço da guerra contra o terrorismo.

Título original: Body of Lies
De: Ridley Scott
Com: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong
Género: Dra
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 128 min. (IMDB)

Ex-jornalista ferido na Guerra do Iraque, Roger Ferris (Leonardo DiCaprio) é recrutado pela CIA para descobrir um líder terrorista que opera na Jordânia. Para se infiltrar na rede, Ferris tem de conquistar os apoios do agente veterano da CIA Ed Hoffman (Russel Crowe) e do chefe das Informações da Jordânia, que pode não ser tão honesto quanto parece. Será que Ferris pode confiar plenamente nos seus aliados sem pôr em risco toda a operação e a sua própria vida? in Público

Crítica:
Já não há heróis

Que os espiões já não são o que eram anda por aí um James Bond que já não tem muito a ver com os dias de ouro de Sean Connery a prová-lo. Que a espionagem também mudou vem prová-lo "Corpo da Mentira" onde o "herói", agente de campo que navega com destreza pelas complexidades geopolíticas do Médio Oriente, não só se deixa "comer" pela concorrência como é mantido às escuras pelo seu chefe tecnocrata que não levanta o rabo de Washington mas não tem problemas em lixar quem se meter no seu caminho.

A premissa de "O Corpo da Mentira" não podia ser mais simples: os EUA estão a perder a "guerra contra o terror" porque continuam a não perceber que isto não é o "quero posso e mando", e não ouvem o suficiente o pessoal que está no terreno e tem a verdadeira noção do que se está ali a passar. Depois, é só "embrulhar" a premissa num revestimento de caleidoscópio de espionagem que vai de Sheffield a Amã passando por Washington e Incirlik e fazê-la passar por entretenimento. Táctica que não resultou o ano passado com "O Reino", de Peter Berg, cujos retornos de bilheteira foram modestos; e parece voltar a não ter resultado com o filme de Scott, que esbarrou no desinteresse das audiências americanas para com filmes que ficcionalizem os dilemas da política externa de Bush.

Em abono da verdade, o "embrulho" de caleidoscópio de espionagem não disfarça grandemente a vocação do filme como thriller político, adaptando o romance do jornalista do "Washington Post" David Ignatius sobre um agente da CIA que procura manobrar por entre as areias movediças de alianças de conveniência ao tentar fazer sair da toca um sucedâneo de Bin Laden. Trocando por miúdos: "Syriana" com mais acção e mais tecnologia, mas sem conseguir esquivar-se às armadilhas que essa definição coloca.

Ora é um tecno-thriller à imagem do "Inimigo Público" do mano Tony, ora uma meditação melancólica que tem algo de Le Carré no modo como pinta a espionagem com cores soturnas, ora um objecto que levanta questões políticas prementes relativas ao que é demasiado entendido como "imperialismo americano" (sobretudo na cena do almoço entre Leonardo di Caprio, Golshifteh Farahani e Lubna Azabal e na presença de Russell Crowe como o untuoso superior hierárquico de Di Caprio, com um sotaque do Sul dos EUA a sublinhar o seu alinhamento com uma administração "de resultados").

Pelo meio disto tudo, "O Corpo da Mentira" nunca consegue criar uma personalidade própria; é um híbrido funcional mas anónimo, que Scott filma com o seu habitual cuidado mas ao qual não consegue imprimir a urgência que a história exige (o mundo real não é, definitivamente, o habitat natural do realizador inglês).

Mas é apreciável ver um filme que, por uma vez, não toma os espectadores por estúpidos nem lhes dá o herói linear que o marketing dá a entender.

Jorge Mourinha

Thursday, 13 November 2008

Quantum of Solace

Gosto deste género de 007. Rude sem floreados nem super armas. O enredo em si é um pouco ténue, com muitas pontas a ligarem-se mágicamente. Eu diminui-a um pouco a acção que chega a ser frenética e não deixa sobreviver nenhuma linha emotiva. Apesar de tudo é um bom filme de acção de uma linha que não se quer que termine.

Titulo original: 007 - Quantum of Solace
De: Marc Forster
Com: Daniel Craig, Judi Dench, Olga Kurylenko
Genero: Acç, Dra
Classificacao: M/12

EUA/GB, 2008, Cores, 105 min. (IMDB)

Daniel Craig é, pela segunda vez, James Bond. E, apesar de todas as críticas antes da estreia de "Casino Royale", será que, agora, alguém ainda se lembra de Pierce Brosnan...? Desta feita, Bond está determinado a perseguir quem forçou Verper, a mulher que amou, a traí-lo. Mas M (Judi Dench) e Bond percebem que a organização que a chantageou é muito mais complexa e perigosa do que tinham imaginado.
Bond cruza-se então com Camille, que procura ela também vingar-se, e que o põe na pista de Dominic Greene, um homem de negócios impiedoso que é um dos pilares da misteriosa organização. Durante a missão, que o conduzirá pela Áustria, Itália e à América do Sul, Bond descobre que Greene está a tentar apoderar-se de um dos recursos naturais mais importantes do mundo, manipulando a CIA e o Governo britânico. Enredado num labirinto de traições e mortes, à medida que se aproxima dos verdadeiros responsáveis pela traição de Vesper, o agente 007 tenta manter o avanço que leva sobre a CIA, os terroristas e mesmo sobre M, de forma a parar a organização e desvendar o plano sinistro de Greene.in Publico

Crítica:
O agente secreto no seu labirinto

Vencida a batalha do relançamento do "franchise" 007 com o excelente "Casino Royale", reinvenção inteligente do super-espião James Bond para o século XXI introduzindo no papel Daniel Craig, os "guardiões" Michael G. Wilson e Barbara Broccoli levam a renovação da máquina ao patamar seguinte, entregando improvavelmente a direcção do filme 22 da veneranda série ao suíço Marc Forster ("Monster''s Ball - Depois do Ódio", "Contado Ninguém Acredita", "O Menino de Cabul").

À imagem do que Martin Campbell fizera em "Casino Royale", também "Quantum of Solace" (título abstruso, retirado a um conto de Fleming mas aplicado a um guião original) foge a algumas das tradições da série, logo a começar pela "regra" que implicava que todas as aventuras de Bond eram independentes das anteriores: aqui, a acção arranca no ponto exacto em que o anterior terminava, naquela que é a primeira sequela oficial nos 22 filmes da série.

Forster prolonga a "circunscrição" que "Casino Royale" introduzira, sugerindo um Bond que tenha feito dieta e treino físico intensivo: eliminou-se impiedosamente toda e qualquer "palha" acessória para deixar apenas a musculatura de um filme de acção cosmopolita e espectacular que se quer espelho do mundo moderno (o vilão Mathieu Amalric é um executivo ambientalista com segundos motivos, Bond é demasiado individualista para deixar os seus chefes políticos descansados), o que explica a sua duração atípica (com 1h45, é o Bond mais "curto" de sempre). Mas, ao contrário do filme anterior, isso acaba por tornar "Quantum of Solace" numa espécie de versão "genérica" do "medicamento" Bond, presa entre o respeito pela tradição da série e a necessidade constante de a reinventar. Um excelente pósgenérico pelos telhados de Siena é demasiado derivativo da série Bourne, mas a "Bond girl" de serviço (Olga Kurylenko, num papel quase decalcado de Claudine Auger em "007 Operação Relâmpago") está mais próxima dos filmes Connery-Moore do que das actrizes mais determinadas de filmes recentes como Eva Green, Michelle Yeoh ou Sophie Marceau.

Mais à frente, o esplendoroso hotel no deserto criado pelo cenógrafo Dennis Gassner recorda-nos os tecnológicos covis de vilania que Ken Adam desenhou para a série durante décadas, mas a quantidade "nonstop" de cenas de acção (compensando o seu uso parcimonioso no anterior "Casino Royale") praticamente afoga a densidade psicológica que se queria uma das pedras basilares do "novo" Bond, tornando Daniel Craig numa eficiente máquina de matar mais do que o agente secreto complexo que se pretende.

Entre modernidade e tradição, Marc Forster procura um equilíbrio que não consegue atingir, e assina um Bond atípico, um pouco esquizofrénico, que quer agradar a gregos e troianos e acaba por não consegur convencer nem uns nem outros. "Quantum of Solace" cumpre o caderno de encargos enquanto filme de acção, mas depois da refundação de "Casino Royale" era legítimo esperar muito mais do que aquilo que nos dá.

Jorge Mourinha

A saga de James Bond continua em grande pujança formal, com a nova cara de Daniel Craig a assumir, convenientemente, a personagem, sem perder ímpeto, nem obstar à passagem do testemunho. "Quantum of Solace" não possuirá a perfeição renovadora de "Casino Royale", mas constitui-se em movimentado divertimento, sem mais, com prodigiosa velocidade e preponderância de uma inventiva montagem, acentuando o lado negro de que a série se tem progressivamente revestido.

Judi Dench prossegue a sua carismática presença, em M. A "Bond Girl" (Olga Kurylenko) está de boa saúde e recomenda-se. Mathieu Amalric constrói um excelente vilão de recorte "ecológico". Siena revela a sua espantosa fotogenia, nas sequências iniciais; o hotel do deserto é um magnífico cenário, pronto a explodir em grande espectáculo. Que mais pedir a um filme que cumpre, em pleno, os seus objectivos programáticos?

Mário Jorge Torres

Wednesday, 29 October 2008

Mamma Mia

Nunca é de mais referir, que odeio musicais. Musicais causam-me "bretoeija". Musicais despertam em mim instintos homicídas desconhecidos. E perguntam voçês, porque é que eu fui ver este filme? Resposta: Porque teve que ser. Pessoalmente acho todos os nºs musicais do filme uma parvoíce pegada. Pontos positivos: as musicas em si dos ABBA são grandes clássicos, belas paisagens, é divertido, temos a oportunidade de ver o Pierce Brosnan numa das figuras mais ridiculas imagináveis. Quem gosta adora, quem não gosta diverte-se.

Título original: Mamma Mia
De: Phyllida Lloyd
Com: Meryl Streep, Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Colin Firth
Género: Com, Mus
Classificação: M/6

ALE/EUA/GB, 2008, Cor, 108 min. (IMDB)

"Mamma Mia!" foi um dos musicais mais vistos e aplaudidos (por 30 milhões de pessoas em 170 cidades pelo mundo), ao som da música dos Abba. Agora, vai provavelmente tornar-se o grande filme de Verão.
Donna (Meryl Streep) é uma mãe solteira e independente que gere um pequeno e idílico hotel numa ilha grega. A filha Sophie (Amanda Seyfreid) vai casar e para o casamento Donna convida as suas melhores amigas. Mas Sophie, que secretamente sonha encontrar o pai, faz também três convites inesperados. À ilha chegam três homens (Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgard) que pertenceram ao passado de Donna, sendo que qualquer um deles pode ser o pai de Sophie. Em 24 horas, Donna desespera e tudo pode acontecer, até porque com um casamento por perto o romance anda no ar.in Publico

Crítica:
Greatest hits com história

Não é a primeira vez que um acervo de canções pré-existentes é retrabalhado para um musical. Um dos clássicos absolutos do cinema americano - "Um Americano em Paris" (1945), de Vincente Minnelli - foi construído à volta de composições pré-existentes de George Gershwin, que morrera em 1937. E o recente "Moulin Rouge!" (2000), de Baz Luhrmann, reunia dezenas de êxitos pop da segunda metade do século XX, de Nat King Cole aos Nirvana.

Mas "Mamma Mia!" é uma "ave rara": transporta os "greatest hits" dos Abba praticamente intactos em termos de sonoridade, à excepção de acertos pontuais para adaptar a canção à personagem ("Does Your Mother Know" e "Lay All Your Love on Me" "mudam de sexo") ou leves actualizações de arranjos sem por isso alterar "o som Abba", nem reescrever o passado.

Faz sentido que assim seja num musical onde as canções são verdadeiramente o que interessa: Benny Andersson e Björn Ulvaeus, as "eminências pardas" do grupo (que, depois da dissolução em 1982, escreveram dois musicais...), já se tinham investido na supervisão da produção de palco, e reuniram para o filme a banda de estúdio presente nos discos originais para garantir a fidelidade à fonte.

Depois, bom, depois põem-se os actores a cantar - afinal, a tradição do musical é que os actores sejam capazes de representar, cantar e dançar, mais complicado hoje em dia que o "star system" dos estúdios se desagregou e em que o teatro musical se tornou num "nicho" estanque. Mas como a ideia de "Mamma Mia!" é a de uma festa-karaoke onde não faz mal que não se cante bem, não é problemático que Colin Firth, Pierce Brosnan ou Stellan Skarsgard não sejam exactamente Pavarottis. Até porque a maior parte das canções são entregues às personagens femininas - correspondendo também aí às gravações originais, cantadas maioritariamente por Agnetha Fältskog e Frida Lyngstad - e Meryl Streep e Amanda Seyfried, que fazem o "grosso da despesa", têm óptimas vozes.

O que acaba por surpreender mais em "Mamma Mia!" é o facto de Catherine Johnson e Judy Craymer terem conseguido encontrar um fio condutor que permite a canções criadas isoladamente fazerem sentido enquanto um todo. Nem todos os clássicos estão representados - as letras de "Fernando" ou "One of Us", por exemplo, não se prestavam à estrutura central da peça/filme, sobre uma jovem noiva que procura descobrir qual dos três namorados que a sua mãe teve 20 anos antes é o seu pai. Mas os que estão (e que vão de "Dancing Queen" a "Super Trouper" passando por "Voulez-Vous" ou "The Winner Takes It All") fazem todo o sentido dentro da história que serve de ligação - e só mesmo os resmungões se vão queixar de faltar esta ou aquela canção.


Jorge Mourinha

Wednesday, 22 October 2008

Destruir depois de ler

Gostei, se bem que por vezes o ritmo decaia demais. Grandes interpretações, Brad Pitt e Clooney excelentes. Mais uma comédia negra, mordaz e critica de mais uma faceta dos bons EUA.

Título original: Burn After Reading
De: Ethan e Joel Coen
Com: George Clooney, Brad Pitt, John Malkovich
Género: Com, Cri
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 96 min. (IMDB)

Os irmãos Coen voltam a assinar uma comédia depois do negro e muito premiado "Este País Não é Para Velhos". "Destruir Depois de Ler" foi o filme de abertura na última edição do Festival de Veneza e conta com um elenco de luxo: John Malkovich, Tilda Swinton, Brad Pitt e os habitués na filmografia Coen Frances McDormand e George Clooney.
Malkovich é um ex-agente da CIA que, depois de sair da agência, resolve escrever e compilar as suas memórias, documentando segredos do Governo. Ao mesmo tempo, a mulher (Swinton), que o trai com Harry (Clooney), decide deixá-lo e arrancar-lhe o máximo de dinheiro possível com o divórcio.
Mas o disco das memórias vai parar às mãos de dois pouco escrupulosos empregados de um ginásio, Linda e Chad (McDormand e Pitt), que planeiam explorar ao máximo a sua descoberta, vendendo a informação e conseguindo com isso pagar a almejada cirurgia plástica de Linda. É claro que a sucessão de hilariantes acontecimentos não tarda a começar.in Publico

Crítica:
Ensaio sobre a estupidez

Em "Este País Não É para Velhos", Joel e Ethan Coen afinavam a sua visão desencantada e distanciada da "pequena América" como um país de gente a tentar sobreviver num mundo que parece ter saltado fora dos eixos, e receberam a consagração de crítica, público e Oscares. E o que é que fazem a seguir? Uma comédia quase "screwball" onde põem alguns dos mais populares actores contemporâneos a fazerem de gente a tentar sobreviver num mundo que parece ter saltado fora dos eixos.

A diferença entre um e outro - para lá da recepção crítica bastante negativa da imprensa americana, com Richard Corliss da "Time" a dizer-se perplexo - é essencialmente no tom: da elegia desencantada e da nostalgia de uma inocência de outros tempos de "Este País Não É para Velhos" passou-se à constatação do presente em tom de sorriso amarelo de "Destruir Depois de Ler". Mas a secura quase cruel do cinema dos Coen, o seu olhar quase clínico sobre as coisas, mantém-se intacta. Claro que os críticos americanos não gostaram do tom de sátira absurdista e selvagem com que os irmãos dissecam esse valor universal que é a estupidez. Porque "Destruir Depois de Ler" é um filme sobre a estupidez, sobre o modo como ela parece estar enraizada numa certa sociedade americana demasiado ocupada com os "sinais exteriores de riqueza" para ligar ao que interessa. E é um filme quase derrotista, na sua sugestão de que o altruísmo e a inocência são valores condenados ao sacrifício, sem lugar neste "novo mundo" onde se persegue tudo aquilo que não interessa.

Há um analista da CIA ( John Malkovich) que se prefere despedir a ser atirado para a prateleira, e que decide escrever as suas memórias reveladoras para fazer dinheiro, enquanto a esposa pediatra (Tilda Swinton) começa a pensar num divórcio para ficar com o dinheiro do casal e eventualmente amancebar-se com o amante, um "marshall" das Finanças (George Clooney) que é casado com uma autora de livros infantis mas dorme por fora com toda a saia que lhe apareça à frente. Uma cópia das memórias reveladoras cai por puro acaso nas mãos de um instrutor de ginásio burro como um calhau (Brad Pitt) e da sua sub-gerente (Frances McDormand) desesperada pelo dinheiro que lhe permita fazer a plástica do seu sonho, uma conversa telefónica origina um malentendido, o analista acha que estão a querer chantageá-lo e é uma questão de tempo até a comédia de enganos revelar a falta de comunicação, o egoísmo e a irresponsabilidade desta gente que quer tão desesperadamente perseguir os seus sonhos que não é capaz de parar para pensar no que está a fazer.

Não estamos assim tão longe de "Fargo" como isso - mas onde aquele era um filme onde a comédia negra coloria a sua estrutura policia e onde havia pelo meio gente sensata, "Destruir Depois de Ler" assume-se mais classicamente como uma comédia onde ninguém se salva, e os Coen não têm, já o sabemos, jeito por aí além para a comédia (apesar do semi-sucesso de "Crueldade Intolerável"). O seu cinema é demasiado clínico e austero para que a graça seja genuína (embora, a espaços, o seja, como na personagem de calhau com olhos que Brad Pitt interpreta com infinita elegância) ou não termine num esgar de cinismo - e, a esse respeito, o espantoso final, tão anticlimáctico como o era o de "Este País Não É para Velhos" mas muito mais revelador da estupidez como constante universal e perfeitamente alinhado com a entomologia intrigada do grosso do filme, trai impecavelmente essa atitude de distanciamento quase superior de quem não se quer misturar.

É, se calhar, por isso muito mais prático olhar para "Destruir Depois de Ler", mais do que uma comédia, como uma sátira fria e desencantada a uma América cada vez mais virada para dentro de si mesma e cada vez mais crédula, acreditando em fachadas e superfícies que nada revelam da verdade mas se limitam a serem projecções de desejos. Ou como um filme infinitamente triste sobre gente solitária e confusa que se procura a si mesma em todos os lugares errados. Ou como uma indirecta a uma administração de saída que ajudou em demasia a tudo o que ficou acima. Ou como um olhar surreal sobre um mundo que já não é como era dantes. O que o torna, claro, num filme nitidamente dos seus autores e que não destoa em nada da obra anterior. Que não é um clássico que vá ficar como um dos seus melhores filmes, mas que é melhor do que a maior parte da crítica dá a entender.


Jorge Mourinha

Saturday, 23 August 2008

Wall.E

Este é um filme fantástico. A primeira parte onde não existem diálogos é simplesmente deliciosa, uma imagem vale verdadeiramente por 1000 palavras. Técnicamente irrepreensível, artisticamente perfeito. Como podem ter reparado, adorei. Go Go PiXAR.

Título original: WALL.E
De: Andrew Stanton
Com: Ben Burtt (Voz), Paul Eiding (Voz), Kim Kopf (Voz)
Género: Ani, Com
Classificação: M/6

EUA, 2008, Cor, 98 min. (IMDB)

Há 700 anos, os humanos abandonaram a Terra, mas sonham voltar um dia. Para trás, ficou apenas Wall.E, um pequeno robô muito curioso e que se sente um pouco sozinho. Até ao dia em que chega a bela Eve, uma sofistica robô, que percebe que Wall.E pode ter descoberto, inadvertidamente, a solução para o futuro da Terra. Wall.E encanta-se por Eve mas ela corre de volta para o Espaço para contar aos humanos que a hora por que há tanto esperam pode estar perto. Talvez, por fim, seja seguro regressar à Terra, voltar a casa. Wall.E, no entanto, não desiste da sua amada robô e persegue-a galáxia fora, numa divertida aventura. Wall.E chegou para encantar e percebe-se porquê: pertence às melhores famílias e foi criado pelos humanos responsáveis por "À Procura de Nemo", "Carros" e "The Incredibles - Os Super-Heróis".in Publico

Crítica:
O toque humano

Vejamos: daqui a 700 anos, a Terra sobreconsumida tornou-se num deserto árido feito de lixo e poeira, onde só as baratas e os robôs sobrevivem, e os humanos retiraram-se para o espaço para aí viverem uma existência quase "virtual" como consumidores passivos a bordo de super-naves automatizadas. Estariam perdoados por pensar que isto é apenas a mais recente distopia de ficção-científica em variação sobre a icónica "Matrix" dos manos Wachowski.

Em vez disso, o que acabámos de descrever é a base do mais recente prodígio animado por computador da Pixar de John Lasseter - sim, os mesmos dos "Toy Story" e de "À Procura de Nemo" e de "Ratatui". E um prodígio que, ao mesmo tempo que confirma a perfeição tecnológica e a sofisticação visual a que o estúdio de Emeryville nos habituou, regressa à própria origem pioneira do cinema, à capacidade de contar uma história de modo puramente visual, sem as "âncoras" do diálogo narrativo.

Que o mesmo é dizer: os primeiros vinte minutos de "Wall-E" não têm diálogo de espécie nenhuma. E só um terço do filme, se tanto, tem diálogo falado. Nestes tempos em que o cinema quer tanto encher o olho que se carrega na espectacularidade em detrimento de tudo o resto, em que a narrativa é um simples pretexto para acumular as sequências de acção, os magos da Pixar respondem de modo absurdamente simples: fazendo da própria imagem a narrativa, integrando tudo aquilo que é necessário ao espectador para seguir a história no modo como as personagens se movimentam e interagem com o seu universo, sem recorrer a "muletas" narrativas ou diálogos.

É, em suma, cinema em estado puro: uma experiência acima de tudo visual que invoca ao mesmo tempo os pioneiros da comédia cinematográfica (Chaplin e Keaton à cabeça) e a ficção-científica distópica ("2001: Odisseia no Espaço", "À Beira do Fim", "O Último Homem na Terra" à cabeça), e que o faz dentro do quadro criativo da mais velha história do cinema - "rapaz encontra rapariga".

A questão aqui, claro, é que o "rapaz" e a "rapariga" são robôs. Wall-E é o único "homem do lixo" que resistiu à erosão do tempo na Terra abandonada, "almeida" solitário de um planeta deserto que desenvolveu uma personalidade de coleccionador maníaco e tem como único amigo uma barata curiosa. EVA é a sonda aerodinâmica e sofisticada enviada à Terra para investigar se há sinais de vida vegetal que marquem a regeneração do planeta e o retorno da sustentabilidade da vida humana. O homem do lixo e a super-modelo, em suma, um casal tão improvável como ternurento - se é que é possível chamar "ternurento" a metal e circuitos programados.

Mas, claro, no mundo da Pixar, como já percebemos, tudo é possível, e "Wall-E" é o passo seguinte da evolução da companhia que o geralmente incompreendido "Carros" pôs em marcha. Não só Wall-E e EVA são realmente dois românticos ternurentos como este é o filme mais arriscado, arrojado e experimental que o estúdio alguma vez produziu. Esta mistura quase sem diálogos de alegoria ecológica, sátira consumista (arrepiantemente certeira) e romance desastrado, que recorda a espaços o ostracizado "Cosmonauta Perdido" de Douglas Trumbull, é o evidente resultado de criativos que não estão interessados em fazer mais do mesmo mas sim em forçar os limites do que pode ser feito no cinema de animação.

E a ironia suprema de "Wall-E" é a de ser um filme sem narrativa convencional que conta uma história mais bem construída, mais conseguida, mais inteligente e mais comovente do que 99 por cento da produção "convencional" corrente. Porque, independentemente da distopia futurista, este é um filme optimista, que assume que enquanto a espécie humana tiver engenho e bom senso, o futuro só pode ser bom. E porque, apesar de ter robôs como estrelas e de ser uma aventura futurista, o que nele se conta é a história de um solitário que descobre o amor e de como isso muda, literalmente, o seu mundo. Está tudo nas lentes que servem de olhos a Wall-E - e na magia indecifrável com que Andrew Stanton e a sua equipa transformam essas lentes numa janela para a alma de um robô solitário num mundo vazio, e, por extensão, para a lição de humanidade que Wall-E e os seus confrades metálicos dão a uma sociedade que esqueceu o que é o toque humano (magistralmente reflectido nas "mãos" dadas, primeiro, de Wall-E e EVA e, depois, de John e Mary).

A palavra pode estar gasta, mas há casos em que não é possível usar outra: "Wall-E" é uma obra-prima.

Jorge Mourinha

Sunday, 17 August 2008

A Múmia 3

Ainda não sei para que fui ver isto. Nem as boas cenas de acção me entusiasmaram, a comédia fraquinha, fraquinha. O guião uma treta do mais superficial imaginável. Recomendável só para uma tarde de domingo de chuva.

Título original: The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor
De: Rob Cohen
Com: Jet Li, Brendan Fraser, Maria Bello, John Hannah
Género: Ave
Classificação: M/12

ALE/CAN/EUA, 2008, Cor, 112 min. (IMDB)

O aventureiro Rick O'Connell (Brendan Fraser) regressa para combater o ressuscitado Imperador Han (Jet Li), num épico que vai desde as catacumbas da antiga China até aos gélidos Himalaias. Rick é acompanhado nesta nova aventura pelo filho Alex (Luke Ford), a esposa Evelyn (Maria Bello) e irmão dela, Jonathan (John Hannah). Os O''Connell terão de impedir uma múmia com 2000 anos de lançar uma maldição sobre o mundo e colocá-lo, de modo impiedoso, à sua mercê.
in Publico

Wednesday, 13 August 2008

Olho Vivo

É um filme altos e baixos, momentos hilariantes com outros apagados. Actores em forma neste filme especiamente apreciado por saudosistas.

Título original: Get Smart
De: Peter Segal
Com: Steve Carell, Anne Hathaway, Anne Hathaway
Género: Acç, Com
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cor, 110 min. (IMDB)

Crescemos todos a rir-nos com ele: o agente Maxwell Smart e a sua habilidosa falta de talento para a espionagem e a sua sedutora, divertida e muito mais jeitosa colega, a agente 99. Max regressa aos ecrãs, agora com o actor Steve Carrel a vestir o fato e Anne Hathaway a calçar os saltos altos da agente 99.
Smart tem como missão contrariar a última tentativa de dominação mundial, perpetrada pelo sindicato do crime conhecido como KAOS.
Quando a sede da agência CONTROL é atacada e a identidade dos seus agentes comprometida, o Chefe (Alan Arkin) não tem outra escolha a não ser promover Maxwell Smart, que sempre sonhou trabalhar com o famoso agente 23 (Dwayne Johnson, mais conhecido como "The Rock", estrela do "wrestling").
No entanto, Smart vai ser parceiro do único agente cuja identidade não foi comprometida: a encantadora mas letal veterana agente 99.
Cada vez mais próximos da KAOS, Smart e 99 descobrem que o colaborador Siegfried (Terence Stamp) e o seu assistente Shtarker estão a planear ganhar dinheiro com a sua rede de terror. Com a sua pouca experiência de campo, Smart - armado apenas com alguns "gadgets" e o seu entusiasmo desenfreado - terá de conseguir derrotar a KAOS se quiser salvar o dia.in Público

Crítica:
É provável que - apesar da RTP Memória - a maior parte dos espectadores contemporâneos não tenha memória do "Olho Vivo" original, a série de comédia que Mel Brooks e Buck Henry inventaram em 1965 sobre um agente secreto desastrado (Don Adams). Também não é grave, porque esta "reinvenção" da série para os nossos dias como uma banal comédia de acção (que transforma Maxwell Smart num analista de excepção que uma ameaça à agência super-secreta CONTROL atira para o terreno) não implica que se conheça o original.

É, aliás, uma boa solução para conseguir que o filme ganhasse uma identidade para lá da série, mas o que é pena é que o potencial da ideia fique tão frustrantemente por realizar - "Olho Vivo" 2008 é essencialmente uma variação revista e corrigida sobre o "Johnny English" (2003) de Rowan Atkinson, que acerta na mouche no elenco que foi buscar, mas desperdiça o entusiasmo dos actores num guião insuficientemente engraçado e numa encenação meramente anónima (Peter Segal é um funcionário e não um qualquer estilista da comédia - coisa que, hoje, anda a fazer muito falta).

A entrega de um impecável Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson (o ex-wrestler The Rock, a provar que está aqui um actor com cabeça) e, sobretudo, Alan Arkin (perfeitamente possesso no papel do "Chefe" que foi originalmente de Edward Platt) merecia mais do que esta fita simpática mas insuficiente.

Jorge Mourinha

Wednesday, 30 July 2008

O Cavaleiro das Trevas

O melhor Batman de sempre. Cru, soturno, alucinante. Interpretação magistral do Joker, um criminoso anárquico a milhas do cartoon de Jack Nicholson. Muito, muito bom

Título original: The Dark Knight
De: Christopher Nolan
Com: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Morgan Freeman, Aaron Eckhart
Género: Acç, Dra
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 125 min. (IMDB)

Depois de "Batman: O Início", o homem-morcego regressa para continuar a lutar contra o crime. Batman (Christian Bale), em colaboração com o Tenente Jim Gordon (Gary Oldman) e com o Procurador Harvey Dent (Aaron Eckhart - depois tornado o vilão Duas Caras), limpa Gotham de organizações criminosas. Até que a cidade mergulha novamente no caos criado pelo maquiavélico e genial Joker (Heath Ledger), um inimigo feroz, talvez o maior inimigo de Batman.
Realizado por Christopher Nolan, o filme ficou marcado pela morte de Heath Ledger, que teve em Joker o seu último papel; uma prestação descrita como perturbadora e inesquecível. O elenco de estrelas inclui ainda Michael Caine (novamente como Alfred), Maggie Gyllenhaal (que substitui Katie Holmes como Rachel), Morgan Freeman (novamente como Lucius), Cillian Murphy (Dr. Crane e Scarecrow) ou Eric Roberts (o mafioso Moroni). in Público

Crítica:
O senhor do caos

Era inevitável, por isso dizemo-lo já: "O Cavaleiro das Trevas" está sob a sombra de Heath Ledger. Um filme que já se moveria pelos terrenos do negrume, tem uma carga adicional. O actor morreu em Janeiro, depois das filmagens, e fez um dos papéis da sua vida. Se o espírito do espectador fosse uma peneira, no final de "O Cavaleiro das Trevas" o que ficava era a pepita Joker. A penúltima interpretação do australiano é uma figura do caos que sobretudo inquieta (não sabemos se nos repele), um anti-Jack Nicholson, um jogral que não se ri com o estômago, mas que expectora a plenos pulmões.

O realizador Christopher Nolan leva Batman a sério. Onde Tim Burton ("Batman", 1989; "Batman Regressa", 1992) era fantasioso e diferido, Nolan é cheio de arestas e ancorado ao seu contexto histórico. Explora a famosa frase de Michael Caine (que regressa como o mordomo Alfred): "O Super-Homem é como a América se vê a si mesma e o Batman é como o resto do mundo vê a América."

Esse Verão americano está repleto de filmes de super-heróis ou associados à BD ("Iron Man", "O Incrível Hulk", vem aí "Hellboy II") que batem recordes de bilheteira. Para a história, fica para já um duelo de titãs: na semana passada, nos EUA, "O Cavaleiro das Trevas", adaptação de uma personagem da DC Comics, tornou-se o filme com a estreia mais lucrativa de sempre, batendo "Homem-Aranha 3" (2007), personagem da Marvel. Como escrevia a "Wired", "este Verão, os super-heróis salvaram Hollywood". E isto com Nolan e o seu homem de negro, Christian Bale, a levar Batman a sério.

Traduzindo: "O Cavaleiro das Trevas", em vez de uma parada encabeçada por Joker e seus acólitos atraindo os cidadãos de Gotham como o flautista atraía as crianças de Hamelin para a sua toca, tem um urbano e decadente assassino que amedronta uma cidade. Um terrorista? Pelo menos consegue enervar Daniel Maia, ilustrador português com trabalho em curso para a Marvel. "É absolutamente anarquista nos seus propósitos, pois até para com ele próprio não tem códigos de conduta específicos. Nesse sentido, é a incarnação do caos. Acaba por se tornar uma paródia demoníaca da imagem circense que assume."

A face e a moeda

Em vez de um Joker de casaca púrpura e laço verde, pintura a "eyliner" e "bâton" cereja, há uma figura de mortalha, um homem que, perante um livro de colorir, pinta fora das linhas. "A sua motivação principal é a de um anarquista. Falei muito com o Heath sobre isso, mesmo quando estávamos a terminar o guião [assinado por Nolan e pelo irmão Jonathan], e ambos concordámos que a força mais ameaçadora que a sociedade enfrenta é a anarquia pura", disse o realizador ao "Guardian".

Ledger, o homem que não gostava de BD, foi a um lugar escuro em busca da personagem. Juntou a anarquia UK de Johnny Rotten, dos Sex Pistols, com a loucura de Malcom McDowell em "Laranja Mecânica". E há quem veja mais. "Não via um vilão assim desde que Dennis Hopper fez de Frank Booth em 'Veludo Azul' - isto assusta ainda mais do que o Hannibal Lecter", disse ao "Independent" Gary Oldman, contido no papel do agente Jim Gordon em "O Cavaleiro das Trevas". "Diverti-me mais do que nunca, ou provavelmente mais do que alguma vez me divertirei, a interpretar uma personagem", disse Ledger após terminar o papel.

No filme assistimos à emergência de outro vilão clássico do mundo Batman (criado por Bob Kane, com Bill Finger e o ilustrador Jerry Robinson em 1939): Harvey Dent/Duas-Caras e a sua moeda da sorte. Interpreta-o Aaron Eckhart, como um cavaleiro branco da Justiça. Ele, Christian Bale e Heath Ledger dividem o protagonismo. E tropeçamos na ambiguidade a cada passo.
"Para eles, tu és uma aberração. Como eu", diz o Joker a Batman. Batman e Joker "são o reflexo um do outro e não se sabe bem quem é o claro e o escuro, o bem e o mal", comenta Pedro Vasconcelos, sociólogo do ISCTE. Duas faces da mesma moeda? "Não sei se não serão a mesma face de uma mesma moeda, que está sempre a rodar", observa.

A ambivalência de Batman, o justiceiro-vigilante que toma a lei nas suas mãos, é a ambivalência do filme: negro, mas para a multidão pipoqueira, saído dos "comics", próximo das narrativas do século XXI povoadas de insegurança e arranha-céus pós-11 de Setembro; "arty", mas "blockbuster". É um mundo de linhas vítreas e dias e noites brancas, da perenidade das linhas de horizonte das cidades perante o caos social que vive lá em baixo. Já não estamos no Kansas, nem na terra do CGI. O GPS tem de apontar para uma terra real, para a geografia de uma sociedade cada vez mais dividida entre o desejo de originalidade e a forma massificada como a ela acede, para um mundo em que o léxico do medo é incontornável.

É um filme de verdadeiros telhados de vidro, não é um filme de estúdio e de gárgulas no topo dos edifícios. "Fizemos logo saber às pessoas: este é um filme de 'location'", disse Nolan ao "New York Times". Com o "production designer" Nathan Crowley, que trabalha com o realizador desde "Insónia", desimpediu-se a Gotham de "Batman - O Início" (2005). Ali se move o cruzado com a sua capa negra, com um fato quase armadilhado de tão raiado e militarizado, a bordo do seu Tumbler e do seu Batpod (carro tipo tanque e motorizada, respectivamente), como um couraçado a mover-se por Bagdad. "Ele é um terrorista", acusam as forças do Bem de Gotham, já saturadas das ameaças do escorregadio Joker. E sim, a paisagem está marcada pelo 11 de Setembro, mas em referências, não em tributos. A indústria cultural "já está na fase do desabafo", comenta Paulo Prazeres, realizador e VJ, que no festival de BD ComicCon, em Nova Iorque, assistiu ao lançamento de um novo herói, apresentado como "o Capitão América da nossa geração", associado ao 11 de Setembro.

Os vilões em nós

Não há mão para o visceral Joker, para a língua que entra e sai de uma boca rasgada e borrada de vermelho - "Desde ["Que Teria Acontecido a] Baby Jane" que o "'bâton' não era tão assustador", postula o escritor Hank Stuever no "Washington Post" -, para o jogral de membros soltos, violentado por algo mais poderoso, por uma superinteligência, uma clarividência ensurdecedora, uma paixão pela anarquia, um trauma esquivo. "Para Bin Laden, o terror é uma arma estratégica. Para o Joker, os objectivos são o puro terror, o caos é o terror. Ele surge como o monstro absoluto, um puro demónio", comenta o sociólogo.

Este é o Joker dos romances gráficos "The Killing Joke" (Alan Moore e Bryan Bolland, 1988), de "Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth" (Grant Morrison e Dave McKean, 1989), é o Joker revitalizado por Frank Miller na mini-série (1986) de "comics" "The Dark Knight Returns". Aquele que dança, com Batman, um eterno tango fatal para dois.

Nos filmes, parece ser o Joker que mais está fascinado pela sua némesis. "Onde é que ele arranja aqueles maravilhosos brinquedos?", perguntava, invejoso, o Joker/Nicholson no filme de Tim Burton. "Tu completas-me", declara-se o Joker/Ledger no filme de Nolan. "No 'The Killing Joke', Batman acaba a rir com ele", lembra Pedro Vasconcelos.

Em 1940, a figura foi criada como um bobo, um "trickster", criatura mitológica que desafia as convenções - um desobediente. Bob Kane queria que ele fosse um assassino de massas, uma presciência de John Wayne Gacy (assassino dos anos 1970 nos EUA que se vestia de palhaço) que iria introduzir a anarquia em Gotham. Na sua origem, não só o "prankster", mas também a personagem de Conrad Veidt no filme mudo de 1928, "O Homem Que Ri", inspirado na história de Victor Hugo.

Ao longo das décadas, foi um rufia, um assaltante de bancos, um "dandy" (Cesar Romero, na série de TV), um pateta "durante os anos 1950, devido à censura que então caíra sobre a indústria de 'comics'", recorda Daniel Maia. E foi Jack Nicholson, que gritava: "Esta cidade precisa de um clister!" Agora, tornou-se Ledger. Uma esperteza aguda: "O que não te mata... torna-te mais estranho", diz o farsante no novo filme. "A primeiríssima versão, de Bob Kane, era bem mais temerosa e parecia-se mais com a representação do Heath Ledger", acrescenta Daniel Maia sobre a sua visão favorita do Joker.

É alguém que, tal como nos romances gráficos dos anos 80, é "um arquivilão, absoluta encarnação do mal, um sociopata" e que ao mesmo tempo "tem uma espécie de superlucidez". "É uma personagem que foi para lá das convenções e hipocrisias sociais", prossegue Pedro Vasconcelos. "A loucura também tem muito de liberdade e o louco parece saber sempre mais do que nós", refere Paulo Prazeres, fã de vilões, de Darth Vader a Joker. Por isso mesmo, entronizamos os heróis, mas fazemos o culto dos vilões.
"Estamos fascinados pelo vilão em nós", teoriza Pedro Vasconcelos. "É a atracção típica do Carnaval, a possibilidade de inverter as regras do mundo. Eu sou o outro, já dizia Mário de Sá Carneiro."

Considera que, no momento histórico actual, "na modernidade, em que há uma tendência crescente de individualização, as personagens que são rebeldes são particularmente atraentes". Especialmente estas, em que entrevemos "um patamar de entendimento do mundo que ultrapassa a mentalidade convencional que achamos sempre que é fechada, limitada e que tem conotações negativas", remata Vasconcelos. "Gosto de pensar que o seu sucesso tem algo a ver com a fobia aos palhaços. Se pensarmos bem, a única 'competição' a nível da cultura pop será por parte do Ronald McDonald", ironiza Daniel Maia.

Mas ao mesmo tempo que adoramos a diferença, já tivemos a nossa dose de anarcas assassinos - de Michael Meyers ("Halloween") ao Jigsaw Killer ("Saw"), de Dexter Morgan a Tony Soprano. Já jogámos muito mais Grand Theft Auto, já vimos assassinos esteticamente aprazíveis e pintámos os códigos de uma vasta paleta de cinzentos. Até já vimos tortura em Abu Ghraib e tentámos evitar as execuções de Saddam Hussein ou Daniel Pearl no computador.
Anestesiados?
Talvez não. A cultura impõe-nos dicotomias, o mundo organiza-se com narrativas em esquema, o Bem e o Mal estão sempre lá. Os impactos ainda se sentem, seja ao ver o Joker matar, seja ao vê-lo aceitar um espancamento com o sempiterno esgar. Ou ao vê-lo vestidinho de voluntária de hospital num travestismo hilariante. Ou seria horripilante?

E com este Joker o vilão da DC Comics vai continuar a atormentar-nos, porque se começou como um "boneco muito certinho", como diz Pedro Vasconcelos, "é cada vez mais um indivíduo descontrolado, sem traço certo". Paulo Prazeres recorda o "nexus" que lhe ficou na mente com "The Killing Joke". É que "o que basta para enlouquecer é ter um dia muito mau". "Podias ser tu, ainda que mais ou menos genial. Mas podias ser tu."


Joana Amaral Cardoso


Anarchy in the USA

Podemos ser hereges? Obrigado.
Aqui vai então: estão a ver o "Batman" de Tim Burton? Atirem-no para um canto. A partir de agora, "O Cavaleiro das Trevas" é a encenação cinematográfica definitiva do Homem-Morcego. E tudo isto sem negar o que ficou para trás - afinal, dificilmente Christopher Nolan poderia ir tão fundo como vai na escuridão de Batman sem o que Burton visualizou em "Batman" (1989) e "Batman Regressa" (1992). (Aparte: o que é surpreendente é que, há dez anos, Burton tenha sido substituído pela visão fluorescente-BD de Joel Schumacher porque a Warner teve medo do abismo negro para onde se estava a levar a série, e Nolan, agora, vá muito mais longe, muito mais escuro do que Burton alguma vez foi. Mas pronto.)

Sem medir as palavras: "O Cavaleiro das Trevas" é o apocalipse urbano pós-11 de Setembro, a metrópole sitiada pelos insurgentes, o medo diário do terrorismo vindo de parte nenhuma, metaforizada na cidade a ferro e fogo às mãos de um psicótico imprevisível. A ideia da cidade a ferro e fogo já estava no "reboot" que Nolan fez ao "franchise" do Homem-Morcego em 2005 com "Batman - o Início" - e sempre existiu no universo dos super-heróis - mas em todos os episódios anteriores estava ainda incluida numa dimensão fantasista. Aqui, Nolan depurou a produção cenográfica para instalar o filme numa banal metrópole americana, sem a estilização surreal a que nos habituámos para nos dizer que "isto é só um filme", usando actores sem "imagem de marca" (ou contra as suas imagens de marca) para nos afastar das codificações do filme de super-heróis.

Aqui, estamos no mundo real: Batman não tem super-poderes, é apenas um homem torturado que utiliza a tecnologia de ponta para fazer aquilo que mais ninguém pode - ou que mais ninguém quer. Aqui, o vilão não é um homem como outro qualquer: é o Mal absoluto, a anarquia pura. O Joker de Tim Burton, sob os traços de Jack Nicholson, era apesar de tudo uma personagem razoavelmente convencional, um gangster movido por vingança. O Joker de Nolan, habitado por um assombroso e irreconhecível Heath Ledger (e sim, a interpretação é tão extraordinária como têm ouvido dizer), é uma cifra, um mistério, alguém que não procura lucro, fama, prazer. Este Joker é uma espécie de abstracto - como se a escuridão de Batman o tivesse invocado para o pôr à prova, num equilíbrio quase zen entre o Bem e o Mal onde as fronteiras se diluem e as definições se confundem. O Joker de Nolan e Ledger é irredutível, medo em estado puro - e o modo como o realizador o coloca como âncora e bússola do filme (reduzindo o Batman intenso mas contido de Christian Bale a mais uma personagem num certeiro elenco de conjunto) faz "O Cavaleiro das Trevas" erguer-se muito para lá do tradicional filme de super-herói.

Ou antes: quem vier aqui à espera de entretenimento pop descartável pode desde já tirar o cavalinho da chuva. Burton trazia ao de cima a escuridão de Batman ainda dentro de um quadro estilizado de BD, Joel Schumacher ia na direcção oposta ao encenar ("Batman para Sempre", 1995, "Batman & Robin", 1997) um Batman feérico, leve e colorido, mais próximo da série dos anos 1960. Mas Nolan ejecta tudo o que possa ser etiquetado como BD para deixar apenas um filme com estrutura de policial clássico, visual de aventura urbana e alma de tragédia operática. É abusivo recordar "O Padrinho" (e sobretudo o seu mal-amado terceiro episódio) mas esta é, na verdade, uma tragédia do fim do império, com um vilão apostado em instaurar o caos e um herói torturado como única barreira entre a civilização moderna tal como a conhecemos e a anarquia absoluta.

Sim, sabemos que, no papel, isto é apenas mais um filme de superheróis. Sim, sabemos que isto é um filme americano produzido por um grande estúdio. Mas sabemos, também, que o milagre de "O Cavaleiro das Trevas" é cumprir todo esse caderno de encargos e, depois, dar-nos mais do que estaríamos à espera. E, sobretudo, de nos deixar a pensar. Qual foi o último "blockbuster" americano de super-heróis que nos fez isso? (E não vale a pena citar o "Batman" de Burton. É batota.)


Jorge Mourinha

Wednesday, 16 July 2008

Procurado

Fight Club meets Matrix, passo a explicar: Acção tiroteio e fantasia de Matrix com narrativa, ritmo e sarcasmo de Fight Club. Soa divinal mas neste caso o todo fica fica muito aquém da soma das partes. Para filme de acção é bom mas podia ser tão melhor. Nada de novo, e a treta de curvar balas, no fim já chateava.

Título original: Wanted
De: Timur Bekmambetov
Com: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie
Genero: Acç, Thr
Classificação: M/16

EUA, 2008, Cores, 111 min. (IMDB)

Um jovem, aparentemente comum, descobre que o pai, entretanto falecido, era um assassino profissional. É então recrutado por uma bela mulher, Fox, para retomar o lugar do pai e vingar a sua morte.in Público

Crítica:
Prepare-se para ação, slow motion e muitas coisas impossíveis! Tem problemas, mas deixa para lá, afinal, também tem Angelina Jolie!
O Procurado (Wanted, 2008, EUA) tem tudo que um bom filme de ação precisa. Armas, tiroteios, cenas impossíveis, perseguições de tirar o fôlego e, claro, Angelina Jolie. James McAlvoy e Morgan Freeman estão ali, mas o show visual é dela, que vai fazer muito marmanjo pagar o ingresso só para ver sua cena seminua. De qualquer forma, o filme funciona dentro de seu gênero, mesmo com alguns problemas notáveis de edição.

Novidade, entretanto, não existe em termos técnicos em Wanted. Os efeitos das balas não atualizam o bullet time de Matrix e a trajetória do personagem principal – James McAvoy, sempre bem – é uma saga do herói ao avesso que é prejudicada por uma montagem confusa em alguns momentos. A ação, porém, é tão intensa que o ritmo acelerado compensa suas deficiências. O que pode, e deve, frustrar muitos dos fãs da HQ que inspirou o filme, em 2003, no mercado norte-americano.

Os personagens são construídos rapidamente e suas habilidades também. Eles são capazes de curvar as balas, ou seja, atiram de qualquer lugar, a qualquer distância e, normalmente, atingem seus alvos. O mais novo membro dessa elite de assassinos é Wesley (James McAvoy), que é recrutado por Fox (Angelina Jolie) para vingar a morte de seu pai, também membro da tal Fraternidade. Mas há o inimigo, Cross (o competente ator alemão Thomas Kretschmann), um renegado disposto a destruir o grupo.

Mesmo para quem leu a HQ há novidades no roteiro, pelo que já foi dito por quem assistiu. Mas, especialmente, quando se analisa o filme sem essa referência pode se valorizar a construção de uma grande mentira em torno da real função de Wesley e a verdade por trás da Fraternidade, que é liderada pelo personagem de Morgan Freeman – em destaque por algumas frases fortes, palavrões hilários e uma careta impagável. Comédia? Não, mas valoriza seu trabalho e evita um personagem meramente ilustrativo ou repetitivo. Afinal, criar sujeitos caricatos e bobos é muito fácil.

É aquele tipo de filme feito para a nova geração: boca suja, disposta a mudar o mundo com um headshot, e que sonha em descobrir que é filho de um milionário! Claro que a “apologia” às armas vai dispertar os incautos, claro que os xiitas vão detestar por causa das diferenças, mas claro que tudo isso soa cool para diabos. E é isso que o filme pretende, ser cool. A “Geração MTV” cresceu e esse filme é para ela.

O Procurado, porém, tem seu pior inimigo em sua própria campanha de marketing. Foi-se o tempo em que um filme grande tinha um teaser e um trailer. Agora existem os “promos” e os vídeos para internet. Com isso, se você acompanhou toda a trajetória que a Universal Pictures realizou para divulgar seu produto, você não se surpreende no cinema. As grandes cenas de ação já foram vistas. Angelina já fez o carro rodopiar para resgatar Wesley; que, por sua vez, já cometeu um assassinato aéreo atirando pelo teto solar de um veículo blindado onde estava sua vítima; e por aí vai. As bilheterias não vão sentir o efeito disso, mas, sem dúvida, muita gente vai sair da projeção com a sensação de que já tinha visto quase tudo ali. É aquela velha história “a melhor piada estava no trailer”. Ela pode se repetir nesse filme. O resultado soa como uma montagem desses clipes, ou melhor, um grande videoclipe dirigido pelo russo Timur Bekmambetov (do ótimo Night Watch).

Mas será que alguém vai se preocupar com isso depois de passar algumas horas com a Angelina? O curioso é que muitos fãs do quadrinho já se perguntam: é possível que a Fox seja interpretada por alguém que não a Halle Berry? Meus queridos, Halle não é NADA perto da Jolie, não para esse filme. Acreditem!

O Procurado cumpre o que promete: ação do começo ao fim, tiroteios impensáveis e, claro, dar mais um exemplo da sensualidade voraz de Angelina Jolie em cena. É bacana e empolgante, mas não chega a fazer sombra perante os grandes lançamentos do ano e daqui a pouco vem o morcego para monopolizar as opiniões e colocar os tiros impensáveis de Wanted para escanteio. Mas claro, que, algum daqueles prêmios non-sense que o MTV Awards entrega: Melhor Cena de Carro Rodopiando, ou algo assim. Justo dizer que o filme também entrega alguns elementos secundários de grande valia como outra uma ótima atuação de James McAvoy (os personagens principais nesse caso são as cenas de ação, o fato dele aparecer em todas elas não o torna mais importante que a adrenalina das cenas), que se consolida cada vez mais; uma ótima participação de Terence Stamp; e uma mensagem tapa na cara para quem se contenta com uma vidinha medíocre.

Afinal, o que você tem feito ultimamente?


judao.com.br

Wednesday, 9 July 2008

Hancock

A ideia que deu origem ao argumento parece excelente. A primeira hora parece a óptimo nível para o género, divertida com bons efeitos, infelizmente o final é do mais fraco possível. O vilão é patético e tudo fica atabalhoado. Vale pela primeira hora.

Título original: Hancock
De: Peter Berg
Com: Will Smith, Charlize Theron, Jason Bateman
Género: Acç, Com
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 95 min. (IMDB)

Há heróis, super-heróis e há Hancock (Will Smith), um herói incompreendido que vive em Los Angeles. As pessoas estão fartas dele, mas Hancock não se preocupa com o que os outros pensam. Até que um dia descobre que talvez tenha um lado vulnerável.in Público

Crítica:
Os super-herois sempre foram idealizados como sendo os perfeitos exemplos da humanidade e da sociedade, no entanto, chega-nos agora ás salas de cinema “Hancock”, um filme que nos apresenta uma personagem que vem contradizer esses idealismos predefinidos e consagra o termo anti-heroi. Hancock (Will Smith) é um super-heroi fora do normal, é conflituoso, sarcástico, e incompreendido, as suas acções são sempre bem intencionadas, e apesar de salvar inúmeras vidas, deixa sempre um rasto do seu “trabalho”. Os cidadãos de Los Angeles começam a ficar fartos deste herói e perguntam-se o que fizeram para merecer isto. Hancock não é um homem que se preocupa com o que as pessoas pensam, até ao dia em que ele salva a vida do Relações Públicas Ray Embrey (Jason Bateman), e começa a perceber que também ele pode ter um lado vulnerável.
O filme funciona como uma espécie de crítica ao status que os super-herois detêm no mundo do entretenimento, sendo sempre vistos como seres perfeitos que só praticam boas acções com o melhor comportamento possível, “Hancock” coloca uma nova situação em cima da mesa, e se um super-heroi salvasse o mundo mas agisse como um idiota, seria na mesma respeitado e adorado por todos? Hancock, brilhantemente interpretado por Will Smith, tem super-poderes sobre-humanos mas uma personalidade bem humana, bebe em demasia, não se preocupa com o seu vocabulário nem com a forma como aborda as pessoas, simplesmente adopta uma postura em que não se preocupa com o que o mundo pensa, e á luz desta terrível personalidade Hancock não tem os tradicionais fãs, não é respeitado pelos mais novos e metade da cidade de Los Angeles que processa-lo, até a própria policia quer vê-lo na prisão. Esta visão de um anti-heroi, abordada pelo argumento do filme, não deixa de ser inovadora, caindo muito bem numa época onde cada vez mais os típicos heróis da Marvel têm o seu próprio filme, contudo esta interessantíssima ideia acaba por não ter o aproveitamento devido, sendo pobremente executada por um argumento que apresenta demasiadas falhas, o que leva o filme por um caminho confuso e saturante.
“Hancock” até começa bem, apresentado de forma clara a sua personagem principal, contudo á medida que o filme se desenvolve e Hancock começa a amolecer, o filme vai perdendo interesse. No inicio a personalidade aguerrida e conturbada do nosso anti-heroi, permite cenas de elevado teor cómico que nos fazem perceber de forma clara a sátira montada á imagem superficial de super-heroi, no entanto, á medida que Hancock começa a perder a sua rebeldia, a história começa a entrar espiral descendente, o Drama e o Romance começam a tomar conta do filme, estragando por completo o ambiente criado nas primeiras cenas do filme. O argumento falha em contrabalançar a acção e diversão do início com o drama e tensão do desenvolvimento, criando um filme emocionalmente incoerente com um final verdadeiramente confuso e bastante aparvalhado.
Outro aspecto negativo do filme é o vilão. Todos os heróis sendo super ou anti precisam de um vilão á sua altura, é certo que no inicio do filme Hancock é o seu próprio inimigo, no entanto, com o desenrolar da história essa posição é ocupada por Red (Eddie Marsan) que é certamente um dos vilões mais fracos de sempre já que não intimida nem convence ninguém, Red é o resultado de uma má construção de personagem acompanhada por um péssimo desempenho do actor em causa. Devido á natureza de Hancock, poder-se-ia ter levado o vilão muito mais longe por um caminho completamente diferente.
Will Smith é a estrela do filme e do elenco, mais um bom papel de Smith que tem vindo a impressionar Hollywood com as suas performances praticamente imaculadas, com “Hancock” o nível apresentado não foi o mesmo de “I Am Legend” contudo isso seria pedir demasiado, as circunstancias são outras e “Hancock” é claramente um filme menos exigente e mais comercial.
“Hancock” poderia ter oferecido muito mais com a boa ideia que orienta o seu argumento, a sua história acaba por resultar numa confusão de sentimentos e emoções. Salvam-se os momentos de humor e a intenção de criar uma sátira aos filmes tradicionais de super-herois. Infelizmente, “Hancock”, não funcionou como filme de Acção/Aventura.


Portal Cinema

Wednesday, 28 May 2008

Indiana Jones e o reino da caveira de cristal

Como fã que sou não pude deixar de gostar. É interessante ver como nos é apresentado um Indiana mais entradote. Como sempre Spielberg está em grande, mas atenção estamos a falar de um filme de entretenimento, muita acção e comédia um pouco apalhaçada. A sequência na selva é muito cansativa e fraca, trocava tudo isso por mais suspense. Raiders ainda é o melhor, de longe.

Título original: Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
De: Steven Spielberg
Com: Harrison Ford, Karen Allen, Cate Blanchett
Género: Acç, Ave
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 124 min. (IMDB)

Em plena Guerra Fria, Indiana Jones escapa por um triz no deserto a uma emboscada dos soviéticos. Mas quando regressa finalmente a casa e à universidade, percebe que por aí as coisas vão de mal a pior. As suas actividades paralelas lançaram fortes suspeitas sobre si e o Governo está a pressionar a universidade para que despeça o professor. Ao sair da cidade, Indiana conhece Mutt que lhe faz uma proposta irrecusável: partir à descoberta de um lendário objecto, fonte de fascínio, superstição e medo nas últimas décadas - a Caveira de Cristal de Akator. Mas Indy e Mutt rapidamente percebem que não estão sozinhos nesta busca. Também os soviéticos estão no encalço do mítico tesouro...in Público

Crítica:
Muito boa introdução à matéria - de Elvis a Marlon Brando, passando pelos comunistas e pela ameaça nuclear, a primeira meia-hora opera a passagem de Indiana Jones dos anos 40 para os anos 50, com Spielberg cheio de verve e evidente prazer a inventar planos e a construir raccords. Chegamos a entusiasmar-nos, e aquele plano com o cogumelo nuclear é muito bom. Depois a coisa banaliza-se um pouco.

Os vilões soviéticos são demasiado apalhaçados para que funcionem como funcionavam os nazis dos "Salteadores da Arca Perdida", e a história de reconciliação familiar, que faz espelho com "A Grande Crusada" (era Indiana e o pai, agora é Indiana e o filho) precipita o filme numa paródia não especialmente interessante.

Mas Spielberg, mesmo a brincar, e desde que não esteja num dos maus dias em que já esteve (demasiadas vezes, diríamos), tem talento mais do que suficiente para gerir a acção num ritmo inteligente. "O Reino da Caveira..." acaba antes que comecemos a bocejar, e bem gostávamos de dizer isso a propósito de tudo o que promete que nos vai "entreter".

Luís Miguel Oliveira

Thursday, 17 April 2008

88 minutos

Gostei. Al Pacino numa boa interpretação. Os vilões nem por isso. Quanto à trama, a meio adormece toda a gente, depois vai crescendo até que a antes do climax da acção tudo é desvendado. Se este filme tivesse um "murro no estômago" seria excelente assim é razoável com Al Pacino a puxar para o bom.

Título original: 88 Minutes
De: Jon Avnet
Com: Al Pacino, Alicia Witt, Leelee Sobieski
Género: Dra, Thr
Classificação: M/16

ALE/EUA, 2007, Cores, 110 min. (IMDB)

Um professor universitário, que trabalha também como psiquiatra forense para o FBI, recebe uma ameaça em que lhe são previstos apenas mais 88 minutos de vida. Para salvar a sua própria vida, Jack (Al Pacino) tem de usar todas as suas capacidades para reduzir os possíveis suspeitos, que incluem um estudante descontente, uma antiga amante rejeitada e um "serial killer" que já se encontra no corredor da morte.in Público

Wednesday, 16 April 2008

O tesouro encalhado

Dá para dar umas gargalhadas, mas pouco mais. História fantasiosa demais. Trama pouco credível. Personagens fraquinhos. A melhor ainda é a milionária e desmiolada Jewel. Belas paisagens.

Título original: Fool's Gold
De: Andy Tennant
Com: Matthew McConaughey, Kate Hudson, Donald Sutherland
Género: Ave, Com
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 113 min. (IMDB)

Ben "Finn" Finnegan (Matthew McConaughey) é um surfista amador e bem intencionado que se assume como caçador de tesouros. Obcecado com a procura do lendário Dote da Rainha - 40 arcas de um tesouro que se afundou em 1715 - acaba por perder tudo, nomeadamente o seu casamento com Tess Finnegan (Kate Hudson) e o seu ferrugento barco "Booty Calls". Para tentar refazer a sua vida, Tess consegue um emprego num iate ao serviço de um multimilionário. Mas quando Finn descobre uma nova pista para descobrir o tesouro, introduz-se a bordo do iate e, graças ao seu charme, consegue convencer o magnata e a sua filha a juntarem-se à busca pelo tesouro espanhol. E assim se inicia a caça ao tesouro...in Público

Crítica:
Após o sucesso do primeiro filme no qual trabalharam juntos, os actores Kate Hudson e Matthew McConaughey (que desempenharam os papéis principais na comédia "Como perder um homem em 10 dias") voltam a contracenar em "O tesouro encalhado".

Do realizador Andy Tennant, o filme conta ainda com desempenhos de Donald Sutherland, Ray Winstone e Alexis Dziena, ente outros.

Vejamos então o resumo, seguido do trailer!

«Ben "Finn" Finnegan (Matthew McConaughey) é um surfista amador e bem intencionado que se assume como caçador de tesouros. Obcecado com a procura do lendário Dote da Rainha, 40 arcas de um tesouro exótico que se afundou em 1715, Finn deita tudo a perder com a busca, nomeadamente o seu casamento com Tess Finnegan (Kate Hudson) e o seu ferrugento barco "Booty Calls".

Numa tentativa de refazer a sua vida, Tess emprega-se num mega-iate ao serviço do multi-milionário, Nigel Honeycutt (Donald Sutherland), mas entretanto Finn descobre uma pista vital para o paradeiro do tesouro. Certo de que a sua sorte mudará com esta nova informação, Finn consegue introduzir-se a bordo do iate de Nigel.

Valendo-se do seu bem-intencionado charme, Finn consegue convencer o magnata e a sua filha Gemma (Alexis Dziena) - uma jovem colunável totalmente dependente do seu Blueberry – a juntar-se a ele na busca do tesouro espanhol.

Contrariando o que lhe diz a intuição, Tess volta a deixar-se contagiar pelo amor... da descoberta.»


Cinema no Mundo

Thursday, 10 April 2008

O golpe de Baker Street

História interessante principalmente porque baseada numa história verdadeira. Imagem de época bem conseguida. Mais um filme de gangsters inglês que evita os clichés americanos embora comecem a criar os seus. Bom filme.

Título original: The Bank Job
De: Roger Donaldson
Com: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, James Faulkner
Género: Thr
Classificação: M/16

GB, 2008, Cores, 110 min. (IMDB)

Londres, Setembro de 1971. Um grupo de ladrões cava um túnel até ao cofre de um banco na Rua Baker e rouba uma série de cofres particulares que continham jóias e dinheiro, no valor de milhões e milhões de libras. Nada foi recuperado e ninguém foi preso. O assalto foi manchete nos jornais durante alguns dias e, de repente, desapareceu - resultado de uma "mordaça" colocada à imprensa por parte do Governo inglês. O que estaria por trás do crime? Suspeita-se de um escândalo com ligações à família real...
Uma história em que os ladrões, afinal, até poderiam ser os bons da fita... in Público

Thursday, 3 April 2008

Ponto de mira

Este filme vive da sua montagem. Não existe nenhuma interpretação digna de nota apesar dos nomes sonantes no cartaz. Vê-se bem e mantêm o expectador preso, mas após a trama revelada pouco fica para a posterioridade. Mesmo assim vale a pena ver nem que seja pela sequência cronológica original.

Título original: Vantage point
De: Pete Travis
Com: William Hurt, Eduardo Noriega, Dennis Quaid, Matthew Fox
Género: Dra, Thr
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 90 min. (IMDB)

Thomas Barnes (Dennis Quaid) e Kent Taylor (Matthew Fox) são agentes secretos que têm como missão proteger o Presidente Ashton numa cimeira sobre o terrorismo em Espanha. Mas, pouco depois de chegar, o Presidente é vítima de um atentado. No meio da confusão, um turista americano filma tudo. Também Rex, repórter de uma televisão americana, é testemunha privilegiada dos momentos que antecedem o atentado.
Ao reconstruir os momentos vividos por estas quatro pessoas, a terrível verdade que se esconde por trás do atentado é revelada. in Público

Wednesday, 26 March 2008

10 000 BC

Deu para passar um pouco de tempo mas nada mais que isso. Enredo fraquinho. Noções de geografia no mínimo interessante. A construção das pirâmides e Mamutes no mesmo espaço temporal e físico. Meninas pré-históricas com boa manicure. Bom após um dia stressante de trabalho.

Título original: 10000 BC
De: Roland Emmerich
Com: Steven Strait, Camilla Belle, Cliff Curtis, Omar Sharif
Género: Ave, Dra
Classificação: M/12

EUA/NZ, 2007, Cores, 109 min. (IMDB)

No coração das montanhas, há 10 mil anos, o jovem caçador D'Leh aventura-se por território desconhecido, combatendo tigres dente-de-sabre e predadores pré-históricos, para salvar a bela Evolet, a mulher que ama e que fora raptada por um grupo de guerreiros.
Durante a viagem, D'Leh encontra outras tribos que se juntam à sua demanda até constituírem um pequeno exército. Juntos, vão descobrir um império desconhecido e perceber que para além de salvar Evolet terão de salvar toda uma civilização. in Público

Wednesday, 12 March 2008

Este país não é para velhos

Os Cohen estão de volta. Filme complicado mas marcante, não existem personagens tipo e no entanto todos reconhecíveis. As coisas são simplesmente como são, mesmo que fique um sentimento de injustiça latente. Grandes paisagens e ambientes de iconografia Americana. É um grande filme mas ainda leva algum tempo a digerir.

Título original: No country for old men
De: Ethan e Joel Coen
Com: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin
Género: Dra, Thr
Classificação: M/18

EUA, 2007, Cores, 123 min. (IMDB)

Baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, o premiado autor americano, "Este País Não é Para Velhos" é um hipnótico "thriller" dos irmãos Coen, os realizadores de "Fargo" e "Barton Fink". Nos dias de hoje, os ladrões de gado deram lugar a traficantes de droga e as cidades pequenas tornaram-se campos de batalha. Llewelyn Moss (Josh Brolin) descobre uma carrinha, rodeada por cadáveres, com um carregamento de heroína e dois milhões de dólares em dinheiro. Moss resolve ficar com o dinheiro e o seu acto desencadeia uma série de acontecimentos extremamente violentos, que nem mesmo a lei, na figura do velho e desiludido Xerife Bell (Tommy Lee Jones), consegue travar.
À medida que Moss procura fugir aos seus perseguidores, sobretudo a um misterioso homem (Javier Bardem) que atira uma moeda ao ar para decidir se poupa ou não a vida aos seus inimigos, o filme retrata de forma dramática temas tão antigos como a Bíblia e as manchetes sanguinárias dos jornais. "Este País Não é Para Velhos" foi nomeado para oito Óscares, vencendo quatro: melhor filme, melhor realizador, melhor actor secundário e melhor argumento adaptado. in Público

Crítica:
Por um punhado de dólares

Os irmãos Coen desde cedo partiram o universo dos seus espectadores ao meio, entre o culto incondicional e a aversão, nalguns casos militantemente exacerbada. Pendemos mais para o segundo grupo, o que em princípio nos torna insuspeitos para dizer que "Este País Não é Para Velhos" é o melhor filme saído da oficina dos dois irmãos desde o primeiro filme que realizaram, "Blood Simple", no já remoto ano de 1984.

É que, bem espremidas as contas, é o terceiro filme dos Coen de que os não-coenianos podem gostar, depois de "Fargo", com data de 1996. Dir-se-ia que há aqui um padrão: de doze em doze anos os Coen fazem um bom filme, e padrão por padrão também é verdade que "Este País Não é Para Velhos" não sendo um alienígena na filmografia dos irmãos, se relaciona sobretudo com esses dois filmes, "Blood Simple" e "Fargo".

Mesmo com esta matemática a situação comporta qualquer coisa de inesperado, e "Este País Não é Para Velhos" equivale quase a um golpe de rins. É que os Coen vinham de uma sequência de filmes particularmente descoroçoante, iniciada em 2000 - três filmes péssimos, "Irmão Onde Estás", "O Barbeiro" e o "remake" de "The Ladykillers" (capaz de fazer Alexander Mackendrick e Alec Guiness darem voltas no túmulo), e pelo meio um filme que, em comparação, era simpaticamente indolor, "Crueldade Intolerável".

Para esta renegeração criativa, mesmo que fugaz (a ver vamos), os Coen foram buscar inspiração a Cormac McCarthy. Mais do que uma boa história que eles fossem capazes de traduzir na sua habitual mecânica maneirista, o livro de McCarthy deulhes, diríamos, uma "substância" demasiado forte para que mesmo essa habitual mecânica maneirista fosse capaz de ignorar. Um peso e um sentido, um negrume e uma desolação, e um ponto de vista, não desprovido de ironia, sobre tudo isso.

No fundo de "Este País Não é Para Velhos" (é curioso: uma tradução quase literal do título original que no entanto evacua toda a ambiguidade do inglês "No Country for Old Men") agita-se o velho cinema dos Coen, a sua reverência, arrumada e copista, a modelos clássicos (o "noir", em particular), o gesto estilístico fechado sobre si próprio (há qualquer coisa de "calígrafo" no cinema dos Coen, e nesse sentido, sim, Tarantino não anda, diferenças qualitativas à parte, muito longe), a tendência para a estereotipação, ou deveríamos mesmo dizer "cartoonização", de personagens e referências da América sulista e rural (nos EUA já houve discussões sobre se os Coen "gostam" ou não do Sul; é que é complicado perceber). Isto está tudo a espreitar no fundo de "Este País não é Para Velhos", em modo "soft", mitigado, mas que o é ("soft" e mitigado) por aparecer dotado de uma "gravitas" que nos Coen é rara, a não ser, justamente, em filmes como "Blood Simple" e "Fargo". É essa "gravidade" que aguenta até as personagens mais problemáticas, como o Anton Chigurh de Javier Bardem - que se mantém sempre uma silhueta psicologicamente opaca, quase uma "nãopersonagem", quando uma nota em falso o transformaria num "boneco" (e os Coen vão até ao limite, dandolhe aquele cabelo à tijela e aqueles contra-picados a ampliar-lhe a presença nos enquadramentos).

A América de "Este País Não é Para Velhos" é reconhecível. É aquela que fascina também, por exemplo, Wim Wenders, e que funde a sua memória com a memória das suas imagens (isto é, fundamentalmente, o cinema). A paisagem natural, as estradas, os elementos urbanos tornados "mitológicos", como os motéis e os "diners", etc. No filme dos Coen, que colhe aí o essencial dos seus décors, tudo isso está no seu sítio certo. Se já não há lugar para "old men", o problema não tem a ver com o cenário mas, por assim dizer, com a peça que nele se representa.

O coração narrativo do filme é uma história de ganância e determinação sobre-humana, centrada numa mala de dinheiro que um homem (Josh Brolin) transporta e outro (Bardem) quer recuperar. A melhor sequência, brilhantemente filmada e montada (e já agora, sonorizada), a do motel e da conduta de ventilação, é com essas duas personagens. Mas o "espírito" do filme concentra-se mais numa terceira personagem, o xerife de Tommy Lee Jones, que entre o nostálgico e o perplexo vai passeando o seu nãoreconhecimento pelo rasto (sanguinolento) deixado pela passagem dos outros dois. Num certo sentido, é o xerife, o "old man", a personagem mais sofrida, e a que enforma o olhar sobre a acção.

E que, no final, condensa toda a ambiguidade desta história, confundindo nostalgia e sonho. É que isto, se calhar, foi sempre assim.

Luís Miguel Oliveira

Wednesday, 5 March 2008

No vale de Elah

Gostei. A interpretação de Tommy Lee Jones vale o filme. O tema já batido no Vietname volta agora na última grande guerra Americana

Título original: In the Valley of Elah
De: Paul Haggis
Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jonathan Tucker
Género: Dra, Thr
Classificação: M/16

EUA, 2007, Cores, 121 min. (IMDB)

Depois de regressar do Iraque, Mike Deerfield (Jonathan Tucker) desaparece e é considerado desertor. Quando Hank (Tommy Lee Jones, num surpreendente desempenho), um veterano, e a sua mulher Joan (Susan Sarandon) recebem o telefonema com a trágica notícia do desaparecimento do filho, o pai resolve procurá-lo. A detective Emily Sanders (Charlize Theron) ajuda-o na investigação, mas à medida que o mistério se revela e Hank descobre pormenores sobre a missão do filho no Iraque, tudo aquilo em que acreditava é posto em causa.
"No Vale de Elah" é realizado por Paul Haggis, o realizador do premiado "Crash" e argumentista de "Million Dollar Baby", "As Bandeiras dos Nossos Pais" e "Cartas de Iwo Jima", de Clint Eastwood.in Público

Crítica:
Por mais estranho que possa parecer, o novo filme de Paul Haggis, «No Vale de Elah», foi objecto de alguma marginalização comercial nos EUA. Não se trata de um processo de censura, mas de um discreto apagamento: apesar de contar com estrelas como Tommy Lee Jones, Susan Sarandon e Charlize Theron, o filme estreou em 762 salas, o que corresponde a menos de um terço dos mais importantes lançamentos nacionais. Nem mesmo a nomeação de Tommy Lee Jones para o Óscar de melhor actor alterou a situação.

Estamos a falar, convém sublinhá-lo, do trabalho de um autor consagrado pela Academia de Hollywood. Haggis é o argumentista/realizador de «Colisão», consagrado nos Óscares como melhor filme de 2005 (batendo, entre outros, «O Segredo de Brokeback Mountain»), tendo ainda o seu nome ligado aos argumentos de três títulos de Clint Eastwood: «Million Dollar Baby», «As Bandeiras dos Nossos Pais» e «Cartas de Iwo Jima». A confiança que a grande indústria nele deposita está bem expressa no facto de surgir envolvido na escrita de «Quantum of Solace», a nova aventura de James Bond com estreia prevista para o final do ano.

Que se passa, então, com «No Vale de Elah»? Acontece que nele está em jogo a presença militar americana no Iraque. E não tanto como memória dos próprios combates. De novo com um argumento de sua autoria (a partir de uma história co-escrita com Mark Boal), Haggis propõe um desvio que tem tanto de dramaticamente subtil como de simbolicamente perturbante. Esta é uma história da retaguarda, já que tudo começa com o desaparecimento de um soldado (Jonathan Tucker) nos EUA: regressado de uma missão no Iraque, não visita os pais (Jones/Sarandon), desencadeando uma procura angustiada, até porque o pai tem acesso a imagens do Iraque que o filho registou no seu telemóvel.

«No Vale de Elah» surge com uma visão crítica que é tanto mais forte quanto dispensa qualquer facilidade panfletária. Há, aqui, uma dimensão humanista que transfere a guerra do aparato “espectacular” das televisões para o domínio íntimo e sofrido das pessoas comuns (afinal de contas, na sua mais básica definição dramática, esta é a história de um pai e uma mãe à procura do filho). Nesta perspectiva, podemos dizer que o filme de Paul Haggis recupera toda uma tradição histórica e crítica do cinema americano que possui um capítulo fundamental nas muitas abordagens dos traumas da guerra do Vietname. E não apenas através de títulos míticos como «O Caçador» (1978), de Michael Cimino, e «Apocalypse Now» (1979), de Francis Ford Coppola. É preciso recordar também a herança de alguns “pequenos” filmes independentes como «The Visitors» (1972), de Elia Kazan, ou de outros dramas da retaguarda como o emblemático «O Regresso dos Heróis» (1978), de Hal Ashby.

Será que a nomeação de Tommy Lee Jones (a única que o filme obteve) poderá traduzir-se numa outra visibilidade para o filme? Será difícil, quanto mais não seja porque as nomeações de Daniel Day Lewis («Haverá Sangue»), Johnny Depp («Sweeney Todd») e George Clooney («Michael Clayton») parecem muito mais fortes. Seja como for, podemos apostar que «No Vale de Elah» vai ficar como uma referência clássica dos últimos estertores da época Bush. Esta é a história de uma América que não tem medo de olhar para as suas feridas interiores.

Diário de Notícias

Saturday, 1 March 2008

Michael Clayton

Filme sobre pessoas e as contradições, morais ou não, em que se envolvem. Após a sua visualização não podemos de deixar de olhar para o mundo capitalista com muito mais cépticismo, onde iremos parar com toda esta ganância que nos envolve. Um bom filme, em termos de ritmo não é o meu favorito.

Título original: Michael Clayton
De: Tony Gilroy
Com: George Clooney, Tilda Swinton, Sydney Pollack
Género: Dra, Thr
Classificação: M/12

EUA, 2007, Cores, 119 min. (IMDB)

Michael Clayton (George Clooney) é o homem a quem todos recorrem num dos maiores escritórios de advogados de Nova Iorque, a Kenner, Bach & Ledeen (KBL), quando são precisos métodos pouco ortodoxos para tratar de um processo.
Sob a alçada do co-fundador da firma, Marty Bach (Sydney Pollack), Clayton faz o trabalho sujo e limpa os podres dos clientes da firma. Mas desta vez há um caso que ele talvez não seja capaz de resolver. A KBL está a gerir um processo multimilionário de uma empresa de agroquímica, a U/North, que parece encaminhar-se para um brilhante desfecho do qual depende o posto da consultora legal Karen Crowder. Mas o advogado de topo da KBL, Arthur Edens, tem um aparente esgotamento e começa a deitar tudo a perder, sabotando provas. Clayton é então enviado para gerir o processo, mas quanto mais tenta resolver as coisas, mais tudo se vira contra ele, colocando em risco até a sua própria vida. O filme foi nomeado para sete Óscares arrecadando apenas um: Tilda Swinton, Óscar de melhor actriz secundária.in Público

Crítica:
A Garbo em Clooney

Lembramo-nos que no Festival de Veneza, o final de "Michael Clayton" - um plano de vários minutos, o rosto de George Clooney, tudo num táxi - foi celebrado, havendo quem o comparasse ao final de "Rainha Cristina" (o filme de Rouben Mamoulian de 1933 em que Greta Garbo, sim, ela, nem mais nem menos, ficava a olhar, e assim nos deixava e assim deixava que o seu rosto fosse ele próprio um ecrã, coisa em branco).

Engraçado este delírio estapafúrdio - e em nada belisca a masculinidade de Clooney, porque em termos de masculinidade Garbo... É um delírio que tem a ver, claro, com incorrigível "divismo" da imprensa italiana. Mas é de facto um plano com um segredo qualquer, e tem qualquer coisa de exaltante esperar por ele, esperar com ele: depois de tudo o que ficou para trás no filme, é a tomada de consciência de uma personagem, um homem que faz o "dirty job" para uma empresa de advogados, e é aí, nesse plano, que Clayton/Clooney se decide pela moral e não apenas pelas contingências da sobrevivência.

Esse é o momento da redenção, é assim que se costuma dizer. Mas se esse plano funciona é porque é suficientemente aberto (está longe de ser um final feliz) e "branco" para que o carreguemos emocionalmente - num plano tão parado, muita coisa se passa. É o momento "certo na altura certa", para citar Clooney, que utilizou em Veneza essas palavras para falar do filme e da altura em que ele aparece: hoje. "Michael Clayton", estreia na longa de Tony Gilroy, o argumentista da série "Bourne...", serpenteia pelo mundo das corporações. É filho de uma "família", o "cinema liberal" que Hollywood fez nos anos 1970 - Alan Pakula, Sidney Lumet ou Sidney Pollack, que não por acaso aqui também intérprete e produtor - , assumindo-o não apenas por cinefilia, mas por determinação, arriscaríamos, por militância cívica. Como se dissesse: isto faz sentido hoje e isto é falar sobre hoje (entre outras coisas diz-nos isso o tal plano final...).

Podemos falar, ainda, da curiosidade com que "Michael Clayton" olha para o mundo das corporações e dos advogados, curiosidade em relação a tudo o que é humano, quer sejam os "maus da fita" (Tilda Swinton), quer sejam os "loucos" que denunciam a corrupção (Tom Wilkinson, numa "drive" suicidária que lembra o Peter Finch de "Network", de Lumet). Mas aí teremos de tropeçar na evidência de que há, excessivamente, "filme de argumentista": o preciosismo em relação aos pormenores - foi Gilroy que explicitou a sua obsessão (como é que ele disse?)..."molecular" - multiplica personagens e situações que saturam o filme com informação, dispersam energia, prejudicam a nitidez, o recorte, da estrutura global.

Mesmo assim: inteligente, complexo, e sobre pessoas... contraditórias.

Vasco Câmara

Tuesday, 19 February 2008

Jumper

Bastante mau, apeteceu-me mesmo teleportar-me dali para fora. Argumento miserável e interpretações insípidas. Somente a ideia base escapa no meio disto tudo.

Título original: Jumper
De: Doug Liman
Com: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Diane Lane
Género: Ave, Dra
Classificação: M/12

EUA, 2008, Cores, 88 min. (IMDB)

David Rice parece um jovem como todos os outros, mas não é. David pode tomar o pequeno-almoço nas pirâmides do Nilo e segundos depois estar a fazer surf na Austrália. Impossível? Não para um "jumper", alguém a quem uma anomalia genética transmitiu um dos poderes mais cobiçados de sempre: o teletransporte. David pode teletransportar-se para qualquer parte do mundo, ver vinte vezes o pôr-do-sol ou em segundos roubar milhões de dólares.
Mas David, ao contrário do que pensa, não está sozinho e não é o único a ter este poder. A longa linhagem de "Jumpers" é acompanhada por uma agência secreta, os Paladinos, que têm como missão eliminar David e os seus semelhantes para os impedir de usar os seus poderes para praticar o mal. Perseguido por todo o globo, David descobre passo a passo a surpreendente verdade sobre o seu passado e a sua família.
Dos Estados Unidos às ruas de Tóquio e às ruínas de Roma, a odisseia mundial de David é o primeiro capítulo de uma aventura épica.in Público