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Monday, 16 April 2012

Sin City - Assuntos de familia

De Frank Miller
Devir 2011

O argumento não é nada por aí além .... mas o traço continua magnífico



Crítica:
Cinco anos depois de, aproveitando a estreia do filme de Robert Rodriguez e Frank Miller, ter editado "A Grande Matança" e "Aquele Sacana Amarelo", a Devir volta a lançar em português mais um volume da série "Sin City", prosseguindo com a divulgação em Portugal da seminal criação de Frank Miller. Série revolucionária, pela forma como recupera um género considerado acabado (o policial negro) e o reinventa em violentas histórias de crime e castigo, desenhadas num espectacular preto e branco, altamente contrastado, Sin City tem conciliado o estatuto de obra de culto com um grande sucesso comercial, como de resto aconteceu em Portugal. Estreada no nº 51 da revista Dark Horse Presents, a série Sin City assinalava um estrondoso e inesperado regresso de Frank Miller à prancheta de desenhador, que pôs fim a um hiato de dois anos (desde Elektra Lives Again), em que o criador de Elektra se dedicou a uma decepcionante experiência em Hollywood, onde colaborou nos argumentos dos filmes Robocop II e III. Assegurando todo o processo criativo, desde o argumento e desenhos até à legendagem (ao contrário do que acontecia em Hollywood, onde era apenas mais uma peça da engrenagem), Miller criou com Sin City uma série policial extremamente violenta e inovadora no uso contrastante do preto e branco e na diluição do conceito de herói tradicional, que aqui cede o protagonismo à própria cidade, contribuindo para um novo fôlego dos comics policiais, há muito esquecidos num mercado atulhado de super-heróis.
Estilização talvez seja o adjectivo que melhor defina o seu trabalho em Sin City, pois, sem nunca pretender fazer uma história realista, Miller procurou através de uma enorme economia de meios que tudo parecesse o mais atraente possível. Nas suas palavras: “queria que os carros fossem vintage, as mulheres fossem belas e as gabardines compridas. Se olharmos para um comic desenhado por Johnny Craig ou Wallace Wood [dois desenhadores da E. C. Comics] vemos que eles conseguiam dar "glamour" a todo e qualquer assunto. Eu quero que Sin City seja agradável de desenhar e consequentemente, agradável de ver, até porque eu sabia que estava a lidar com um material extremamente duro”. Valores Familiares”, o novo volume, que a Devir agora é edita, é o quinto da série “e tem a particularidade de ser um longo “one shot” de 126 páginas que se lêem de um só fôlego, e mostram um Miller ao seu melhor nível. Uma história de vingança planejada (e contada) com a precisão de um mecanismo de relojoaria, que lida com o conceito de família de uma forma pouco tradicional. Neste caso, as famílias que dão nome a esta história de valores familiares, em que um velho mafioso não hesita em entrar em guerra com o Boss Wallenquist (personagem que domina o submundo de Sin City,) para vingar a filha morta, são a Máfia e um casal de prostitutas lésbicas. E para além de uma história muitíssimo bem contada, com um judicioso recurso a flash-backs, e planificada de forma quase perfeita, há ainda o puro prazer de ver Miho - uma japonesa que Miller classifica como «o sonho de qualquer artista, pois é extremamente divertida de desenhar e enche as páginas de energia» - em acção e apreciar o belo cadillac cor de cereja que Dwight ganhará como recompensa do seu trabalho. Graficamente, aqueles que pensavam que já nada havia para inventar em Sin City vão ficar surpreendidos com os efeitos da neve das páginas 37 a 41, ou com a imagem expresssionista das páginas 123 e 124, em que Dwight descreve a vingança das prostitutas apelando à imaginação do leitor e conseguindo, assim, um efeito de horror muito mais eficaz do que através de uma mera representação gráfica. Um regresso que se saúda, numa boa edição, bem traduzida, mas que podia ter sido melhor revista. Que venham rapidamente os volumes que faltam! (“Sin City: Valores Familiares”, de Frank Miller, Devir, 128 pags, 11,99 €) Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 2/10/2010

Por um punhado de imagens

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Saturday, 14 April 2012

O Medo do Homem Sábio (Parte II)

De Patrick Rothfuss
1001 Mundos 2011

Continuo a gostar ... envolvente e muito bem escrito. Começo a ficar impaciente, gostaria que o ritmo aumenta-se um pouco no futuro

Enviado pelo Maer para lidar com os bandidos que atacam na estrada do Rei, Kvothe encontra-se agora na companhia de um grupo de mercenários e a desempenhar uma missão que poderá representar muitas dificuldades e muito tempo de busca. O ambiente é tenso e, para lá da missão de que foi incumbido, Kvothe tem também de lidar com os seus invulgares companheiros. Mas a missão é apenas o início de uma longa viagem pelo desconhecido e cada novo passo pode ser, ao mesmo tempo, uma ameaça e uma oportunidade de encontrar respostas para a sua busca de respostas. Um caminho longo, feito tanto de sucessos como de derrotas, de aventuras que ninguém mais terá vivido, mas também, e principalmente, de aprendizagem - pela vida fácil e pela difícil.

Extractos:
Chamo-me Kvothe. Resgatei princesas dos túmulos de reis adormecidos, incendiei Trebon. Passei a noite com Felurian e parti com a sanidade e com a vida. Fui expulso da Universidade na idade em que a maioria dos alunos é admitida. Percorri caminhos ao luar que outros receiam nomear durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e compus canções que fazem chorar os trovadores. É possível que me conheçam.
Critica:
Com a expectativa renovada dei início à leitura do segundo livro de “O Medo do Homem Sábio”. Tínhamos deixado Kvothe na floresta com quatro mercenários à procura de bandidos que atacavam os viajantes. Este grupo de mercenários era constituído por três homens e uma mulher, sendo um deles Adem, um povo muito temido pela sua capacidade de combate, e estranho por falar muito pouco e vestir de vermelho. Kvothe tem alguma dificuldade em mostrar a sua liderança, devido à sua juventude mas aos poucos vai conseguindo, acabando por conseguir o respeito quando descobrem o acampamento dos bandidos e se dá o combate. Este mata a maioria utilizando magia o que deixa os companheiros perplexos. Só o chefe dos bandidos consegue fugir inexplicavelmente, mas mais tarde kvothe vem a saber que era uns dos Chandrians. Mais um encontro quem deixa mais perguntas em aberto :D Concluída a missão dada pelo Maer voltam para prestar contas quando encontram Ferlurien a mulher que nenhum homem resiste nem sobrevive, o grupo foge exceto Kvothe. Kvothe atraído segue Felurian, consegue sobreviver e ainda aprende com ela a arte do amor e por isso é-lhe oferecido uma capa especial. De volta ao mundo real e ao encontro dos colegas, que ficam surpreendidos por vê-lo e recebem-no com alegria pois esperavam nunca mais o ver. Mas surge um novo problema que o desvia do caminho. Durante o tempo que estiveram juntos, Kvothe criou uma amizade especial com Tempi, o mercenário Adem, que lhe ensinou a arte de combate, algo que é proibido. Outros mercenários Adem acabam por descobrir e Kvothe vai para a terra deles tentar salvar o amigo. A chefe deles acaba por desculpar a situação e continuar com a formação deste até passar o exame final e receber a espada. Resolvida a situação, volta a partir para Vintas, indo ao encontro do patrono Maer que fica muito agradecido pelo trabalho, mas descobre que é um Edema Rush, motivo pelo qual ovai dispensar os seus serviços mas dá-lhe uma carta para viajar à vontade nas suas terras e a possibilidade de levantar dinheiro para finalizar os seus estudos. De volta à universidade, todos ficam surpreendidos pois pensavam que tinha morrido no naufrágio. Aí vai de encontro a novos problemas pois quem manda é o professor que mais o odeia. Na estalagem, no fim do 2º dia da crónica, kvothe é atacado e roubado por dois soldados, levando muita pancada. Bast, o seu aprendiz, fica surpreso por ele não se ter defendido. Continua a sua busca pelos Chandrian e os Amir, pois pensa que estes serão a resposta para o assassinato dos seus pais e da sua trupe, mas sem grandes resultados pois todos têm medo de falar. A história contínua a desenvolver-se muito lentamente. A leitura continua a ser interessante e muito cativante. Kvothe continua a ser uma personagem enigmática, mas da qual compreendemos todas as suas as ações mesmo as que não são as mais corretas, pois demonstra ter um coração muito grande sempre pronto a ajudar, em que os bons valores se sobrepõe. O autor continua a deixar o leitor intrigado curioso, sedentos por mais respostas e mais detalhes. Tal como disse na crítica da primeira parte, o autor tem uma escrita acessível e não deixa nenhum detalhe ao acaso. Cada capitulo que lia, ficava mais envolvida na história. Apercebemo-nos que está a criar um enredo que nos vai deixar na expectativa até ao último volume, senão até ao último capítulo. E isto só se consegue quando de facto se nasceu para escrever, para ser um grande contador de histórias. Continuo cativada por Kvothe talvez porque me reveja em alguns dos seus sentimentos. Claro que preferia ter já algumas respostas, mas isso também significava que a saga acabaria mais depressa. Vou aguardar com grande expectativa o 3º dia da crónica. Apesar de ter lido comentários que não gostaram que se dividisse o volume em duas partes, devo acrescentar que preferi assim. Porque de outra forma tornava-se muito extenso. E mal acabei este já tinha sido editado a segunda parte, a espera foi curta. Gostei das capas serem iguais entre a Parte I e a Parte II, somente com pequenas diferenças. Assim consegue-se ficar com a ideia de que se trata do mesmo volume. Fascinante seria a palavra que escolheria para esta saga!

Esmiuça o livro

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Friday, 9 March 2012

O Medo do Homem Sábio (Parte I)

De Patrick Rothfuss
1001 Mundos 2011

Gostei bastante... Uma construção de ambiente de detalhe magistral, mal posso esperar pela segunda parte e pelo 'Nome do Vento'.

Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja par Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei. Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe. Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.

Extractos:
Chamo-me Kvothe. Resgatei princesas dos túmulos de reis adormecidos, incendiei Trebon. Passei a noite com Felurian e parti com a sanidade e com a vida. Fui expulso da Universidade na idade em que a maioria dos alunos é admitida. Percorri caminhos ao luar que outros receiam nomear durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e compus canções que fazem chorar os trovadores. É possível que me conheçam.
Crítica:
Começa o segundo dia e Kvothe continua a narrar ao Cronista a sua história. A história do seu percurso pela Universidade, com todas as atribulações resultantes da rivalidade com Ambrose (e, em certa medida, do seu próprio orgulho), com a evolução da sua aprendizagem, com as suas pequenas aventuras... e com as grandes mudanças condicionadas pelos acontecimentos do passado. De Imre a Vintas, em busca de um futuro que lhe permita investigar as raízes do passado que lhe marcou a existência, esta é a história de um crescimento que continua, de um mundo que muda e que muda a perspectiva de um dos seus mais interessantes habitantes. Uma história com muitas histórias para contar... Estabelece-se, nesta segunda narrativa da história de Kvothe, um ritmo bastante mais pausado que o do livro anterior. Não abundam os grandes acontecimentos nesta primeira parte e é, em grande medida, esta a razão para o abrandamento no ritmo da narrativa. Apesar disso, não se perde qualquer envolvência. Até a mais simples (ou aparentemente simples) situação em que Kvothe se vê envolvido proporciona momentos de interesse, seja no lado emocional, seja na construção da intrigante personagem que é o protagonista deste livro. Não tendo grandes pontos em comum com a versão idealizada do herói, Kvothe é, ainda assim, uma figura com quem é fácil criar empatia e as suas vulnerabilidades, quando surgem, ganham mais evidência pela personalidade orgulhosa que o define. Trata-se da figura central deste livro, é certo, mas há mais para descobrir para além de Kvothe. Com a sua algo delicada situação na Universidade, é possível ver mais sobre o funcionamento do sistema em que esta se enquadra. E, com a mudança para Vintas, tudo muda, apresentando-se um cenário diferente, onde um sistema de protocolo invulgar e uma série de intrigas vêm aumentar as potencialidades desta história. Mas também das personagens que interagem com o protagonista se define algo de muito importante nesta história, já que as ligações e afectos que se criam entre personagens são uma importante parte deste livro. As amizades, a saudade dos que partiram, a lealdade para com amigos (e, por vezes, para com superiores) e aquele toque de amor desesperado definem, tanto quanto o próprio passado, a empatia evocada para com Kvothe. Ainda de referir um toque curioso que se torna mais evidente com o evoluir da narrativa: a forma como, sendo Kvothe o narrador de (quase) toda a história, lhe compete decidir o que desenvolver e o que abordar de forma superficial. Isto é recordado ao leitor quando momentos que parecem ser os grandes pontos da sua história (segundo as lendas que despertaram o interesse do Cronista) acabam por ser apresentados com uma perspectiva completamente diferente. Eram as melhores as expectativas para este livro, e é certo que não desiludiu. Cativante, com um mundo com vários pontos de interesse e boas personagens, das quais se destaca um protagonista carismático e invulgar, este é um livro que recomendo sem reservas.

As Leituras do Corvo

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Thursday, 7 April 2011

A Cook's Tour


In Search of the Perfect Meal

De Anthony Bourdain
Bloomsbury 2001

Aprecio a persona de Bourdain, assim sendo, não é de estranhar que tenha apreciado bastante o livro. Leitura leve e por vezes extremamente divertida.



In this paperback reprint, swashbuckling chef Anthony Bourdain, author of the bestselling Kitchen Confidential (which famously warned restaurant-goers against ordering fish on Mondays), travels where few foodies have thought to travel before in search of the perfect meal: the Sputnik-era kitchen of a "less-than-diminutive" St. Petersburg matron, the provincial farmhouse of a Portuguese pig-slaughterer and the middle of the Moroccan desert, where he dines on "crispy, veiny" lamb testicles. Searching for the "perfect meal," Bourdain writes with humor and intelligence, describing meals of boudin noir and Vietnamese hot vin lon ("essentially a soft-boiled duck embryo") and 'fessing up to a few nights of over-indulgence ("I felt like I'd awakened under a collapsed building," he writes of a night in San Sebastian hopping from tapas bar to tapas bar). Goat's head soup, lemongrass tripe, and pork-blood cake all make appearances, as does less exotic fare, such as French fries and Mars bars (deep fried, but still). In between meals, Bourdain lets his readers in on the surprises and fears of a well-fed American voyaging to far-off, frugal places, where every part of an animal that can be eaten must be eaten, and the need to preserve food has fueled culinary innovation for centuries. He also reminds his audience of the connections between food and land and human toil, which, in these sterilized days of pre-wrapped sausages, is all too easy to forget.

Extractos:
The pig is GETTING fat. Even as we speak," said José months later. From the very moment I informed my boss of my plans to eat my way around the world, another living creature's fate was sealed on the other side of the Atlantic. True to his word, José had called his mother in Portugal and told her to start fattening a pig.
Critica:
Charting the etymology of the term "food porn" would be an interesting exercise for any student of language. So au courante, so correct, it captures, with the touch of derision reserved for all things bourgeois, the peculiar relationship that a TV show or book about food has to food itself; with a few logistical differences, it's an awful lot like the relationship between pornography and sex. Not surprisingly, the phrase has taken off like wildfire.
More so than anyone else, Anthony Bourdain understands the whole food porn phenomenon. It could be said that he is the first post-food porn food pornographer; although he spends pages and pages waxing poetic about ingredients and dishes that the reader will never experience, he does it with a Johnny Rebel insouciance that says, "I may be a chef, but that doesn't mean I can't rock and roll."
A COOK'S TOUR is food porn of a high order, but it's also personality porn. How much you enjoy A COOK'S TOUR depends to some degree on how cool you find Anthony Bourdain. For the record, I'll say that I find him only medium cool. Vegans and vegetarians may find his bombastically pro-carnivore stance annoying --- and his zealotry does smack of desperation --- but that aside, he comes across as reasonably big-hearted. The greatest casualty of his bluster is the absence of a memorable character in the book aside from Bourdain himself; with all the ranting and introspection, there's hardly time.
The loose concept of A COOK'S TOUR is a simple one: America's favorite ex-junky celebrity chef travels the world searching for the perfect meal and offering his wry take on the mise en scène. The structure is that of a typical travelogue, with each chapter devoted to a particular country or trip. Bourdain's style is so breezy you won't mind that he often veers off topic. Discussing pubs in Scotland, he is typically relaxed: "This is mean of me, because I'm not going to give you its name --- and I'm certainly not going to tell you where it is --- or next time I go, there'll be a bunch of 'bloody Yanks' at the bar --- but a friend of mine took me to his local awhile back, on a narrow cobble-stone street in Edinburgh..."
Bourdain is at his best talking about things he loves: the Japanese obsession with quality, the dark vitality of the Russian frontier, the sense of community in small town Mexico. As the hard-drinking, chain-smoking, Bourdain-proclaimed Anthony Bourdain of nations, Vietnam is clearly his favorite, and it gets more time and pages than anyplace else. It sounds vain to be so magisterial with foreign cultures, but his snap judgments are actually quite endearing. Some of the Viet-centrism can also be explained by the book's credits section, which mentions one of Bourdain's earlier books called GONE BAMBOO (according to Bourdain it's the expat's term for going local, Vietnam-style) so maybe he just knows Vietnam better than anyplace else.
Because of the massive success of Bourdain's previous book, KITCHEN CONFIDENTIAL, A COOK'S TOUR is also a TV series on (what else?) the TV Food Network. It may or may not be a coincidence that A COOK'S TOUR the book resembles a TV series in some ways. Each chapter is a free standing episode that works without reference to the rest of the book --- at times Bourdain goes so far as to repeat anecdotes from earlier chapters as if you hadn't just read the same thing 50 pages ago. But mostly the arrangement works quite well, allowing the reader to read in small bits without getting lost. For those craving absolute continuity, the back flap includes an itinerary of Bourdain's adventures. In the end it doesn't really matter; there is no plot development to speak of. The rebel chef arrives, eats, records his impressions and moves on to eat again.
If you are sensing my ambivalence about what is truly a very enjoyable book, perhaps I can explain it this way: It seems silly to criticize what is essentially escapism for being too shallow, but I think, in this case, Bourdain is asking for it. Unlike his cronies on the Food Network, Bourdain isn't content to just mug for the camera. In his book he takes swipes at his readership, at other food celebrities, at the food porn culture in general. I like that idea, but I want more: I want critiques that sting a bit. The fact that Bourdain backs up his complaints with nothing more than quips is a problem. It doesn't ruin his book, far from it; A COOK'S TOUR is often a great read. But it does leave a bad taste in one's mouth.


Bookreporter.com

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Monday, 27 December 2010

Do Alasca à Terra do Fogo


De Michael Boyny
Círculo de Leitores 


A liberdade da viagem. Caminhar sozinho, descobrir as pessoas, a magia dos lugares, a sua história e a força da natureza. O fotógrafo alemão Michael Boyny propôs-se um percurso de descoberta. Partiu da vastidão do Alasca em direcção ao sul. Sul profundo, ao encontro da lendária Terra do Fogo. Do seu percurso ficaram as fabulosas imagens e experiências que partilha neste livro.
Quilómetros e quilómetros de estrada...
A redescoberta de um continente através do olhar de um aventureiro do séc. XXI que se dedica à viagem como forma de vida.
Neste livro o fotógrafo partilha as suas notas de viagem e as imagens absolutamente mágicas que foi captando do topo das Américas, no Alasca, até ao mais profundo arquipélago das Terra do Fogo. Do gelo à estepe, da magnificência do Grande Canyon à terra dos Maias, entre florestas e tempestades, na Patagónia, conhecida como a terra dos ventos, ou percorrendo a costa oeste, este livro propõe, na verdade, o reconhecimento de todo um continente.

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Monday, 15 November 2010

Caderneta de Cromos


De Nuno Markl
Objectiva 2010

Delirante. Mas que grande viagem pelas alamedas da nostalgia esta caderneta nos proporciona. Todos que tenham crescido nos 70 e 80 serão tocados.



Caderneta de Cromos, um livro escrito por Nuno Markl e ilustrado por Patrícia Furtado, vai ser lançado no dia 27 de Setembro de 2010 e será comercializada por 14,90 euros. A rubrica apresentada na Rádio Comercial, que retrata histórias dos anos 70 e 80 vai ser agora publicada pela editora Objectiva.

A Caderneta de Cromos reúne mais de cem cromos inesquecíveis dos anos 70 e 80 e vai responder a questões pertinentes como:

. Samantha Fox e Kim Wilde: qual delas para casar? Qual delas para coiso?
. Quantas maneiras haviam de comer as bolachas Belinhas?
. Usar um blaser branco igual ao do Don Johnson no Miami Vice, resulta na vida real quando se é caixa de óculos.
. Como é que os kalkitos são uma metáfora para as relações sexuais sem amor?
. Porque é que o Fizz Limão é o D. Sebastião da indústria dos gelados?
. Como se resolve, afinal, o Cubo Mágico?


Critica:
Uma delícia este livro de Nuno Markl onde me ri do princípio ao fim. Revi-me em tantas coisas que o autor foi descrevendo como gostos de infância que me senti transportada para aquele tempo onde também eu era maluca por muito desses objectos que existiram nos anos 80.
Falo dos anos 80 porque a minha infância, ao contrário da de Markl, apenas se deu nesta época, mas mesmo assim guardo muitas e boas recordações desses tempos. Tempos em que andávamos em liberdade, mexíamos na terra, andávamos em carrinhos de mão, jogávamos ao berlinde, ao pião, à cabra cega, aos elásticos, ao mata, com a botty bota… e nos automóveis íamos sem cadeira ou cinto e brincávamos tanto!!!!
Eram tempos fantásticos.
E ainda agora gosto de muitas coisas que existiam antigamente. Confesso, sou uma gulosa. Coisas como Peta Zetas que ainda existem em alguns locais fartei-me de comer quando estava grávida. Não se pode dizer que fosse um desejo, mas é um doce tão bom! As pastilhas Gorila, embora não sejam bem iguais às de antigamente, ainda continuam presentes na minha mala.
Com os filmes e séries de televisão foi o que me identifiquei menos. Não era uma criança de ver muita televisão, gostava mais de ler e, além disso, a maior parte das séries retratadas já tinham passado quando comecei a apreciar tv. Uma que acho que faltou referir no livro e que fazia as delícias de todas crianças do meu tempo foi a série portuguesa “Duarte e companhia”. Lembro-me que adorava ver aquilo. E, uns anos mais tarde, tive oportunidade de ver na RTP Memória e aquela expectativa toda de recordar uma série que me deixava pregada ao televisor saiu gorada tal foi a minha decepção. Não sei como gostava tanto daquela palhaçada.
Concluindo, a todos os que nasceram nos anos 70 e 80 leiam e recordem coisas que fizeram parte da vossa infância. A todas as outras gerações leiam na mesma, sobretudo as gerações mais novas, e roam-se de inveja.

Marcador de Livros

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Friday, 12 November 2010

101 Top Tips


De Michael Freeman
ILEX 2002

Grandes dicas, vale o peso em ouro.



For the very first time, renowned international photographer and author Michael Freeman reveals all the insider hints and secrets that most professional photographers dont want you to know. Photographers of all skill levels point-and-shooters, enthusiastic amateurs, and even fellow professionalswill find plenty of invaluable advice drawn from Michael Freemans many years in the field. 101 Top Digital Photography Tips explains how to use your digital camera efficiently and creatively, and how to think and shoot like a seasoned pro. This book will show you how to make the most of your digital camera, even if your resources are limitedcovering everything from shooting in poor weather conditions, faking complex lighting setups, and shooting for depth of field, to fixing damaged files and organizing your photos effectively. You might know Photoshop inside and out, but if youre not using your camera to the best of its abilities, youre likely to be disappointed with the results. Michael Freemans 101 Top Digital Photography Tips will make sure you get the best possible images to work with in the first place, regardless of your current skill level.

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Tuesday, 14 September 2010

Um mundo sem fim


De Ken Follett
Presença 2008

Gostei bastante embora a primeira metade seja um pouco repetitiva e superficial. No fim ganha ritmo e somos enredados. Vale a pena ler.


Depois do enorme êxito de Os Pilares da Terra, Ken Follett regressa à cidade de Kingsbridge, mas desta vez cerca de dois séculos após os acontecimentos do primeiro livro. No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. O sucedido irá para sempre assombrar as suas vidas, mas Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão também marcados pelo próprio tempo em que vivem, e em particular pela maior tragédia que assolou a Europa no século XIV, a Peste Negra

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Saturday, 17 July 2010

Coca cola Killer


De Antonio Victorino D'Almeida
Oficina do Livro 2008

Muito bom. Humor surpreendente e extremamente bem escrito. A crónica do que o 25 de Abril poderia ter evitado.


Marcelino da Gama, o Coca-Cola Killer, o filho do "Monstro do Dafundo" é o exemplo perfeito da inutilidade. Imbecil por natureza, possui, no entanto, a arte para se aproveitar do meio em que se movimenta e, acima de tudo, sabe transformar as derrotas em vitórias para, tal como tantos ilustres do Portugal de ontem e de hoje, se elevar nos píncaros da glória e da fama.
Coca-Cola Killer é uma sátira divertida e inteligente sobre a hipocrisia e o cinismo, personificados num personagem fascisóide, que se aproveita do 25 de Abril para ascender na sua prezada carreira de Diplomata.

Extractos:

- Estão há muito tempo em Bruxelas?
- Estamos.
- E não pensam voltar a Portugal?
Poncrácio olhou-me com certa ironia, antes re responder:
- No estado em que aquela choldra está, nem de férias! Tenho vergonha!
Concordei logo com ele. Não era um país: era um chiqueiro!

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Tuesday, 2 March 2010

A Ameaça


De Ken Follett
Presença 2008

Li avidamente. Já há muito tempo que não sentia ansiedade em abrir um livro. Boa leitura, bom ritmo ... talvez possa ser considerado superficial.


Unanimemente considerado um dos mestres actuais do policial, Ken Follett tem a capacidade única de, a cada novo romance, reinventar o próprio thriller. Em A Ameaça, um poderoso agente antiviral desaparece misteriosamente das instalações da Oxenford Medical, uma empresa farmacêutica que está a desenvolver um antivírus para uma das mais perigosas variedades do Ébola. Quem o poderá ter roubado? E com que obscuras intenções? Toni Gallo, responsável pela segurança da empresa, está profundamente consciente da terrível ameaça que o seu desaparecimento pode significar. Mas o que Toni, Stanley Oxenford, o director da empresa, e a própria polícia vão encontrar pela frente é um pesadelo capaz de ultrapassar os seus piores receios… Traições, violência, heroísmo e paixão num thriller absolutamente brilhante.

Crítica:
Véspera de Natal e os problemas sucedem-se nos laboratórios de investigação da Oxenford Medical. Primeiro foi um funcionário, que, por ligação afectiva a uma das cobaias, leva para casa um coelho infectado com o Madoba-2, uma variante mortífera do vírus Ébola. Para complicar a situação, Kit Oxenford, filho do dono dos laboratórios, tem um plano para roubar o vírus.

Estes são os pontos de partida para um thriller viciante e arrebatador, que puxa os leitores para dentro da mente das diversas personagens, enquanto as acções se sucedem a um ritmo incontrolável. Com a sua já habitual mestria de escrita, Ken Follett transporta-nos para uma acção fulminante e, ao longo dos dois dias nos quais decorre a maioria da história, cada segundo conta para o desfecho final.

Num estilo bem diferente de "Os Pilares da Terra", "A Ameaça" mostra-nos o mestre na sua área mais explorada, e confirma aos seus leitores que, seja qual for o género em que escreve, Follett consegue criar um livro de impacto, original e cativante. Neste livro, apesar da imensidade de termos técnicos normalmente associados a laboratórios e investigação, o autor foge dos exageros de palavras desconhecidas e termos estranhos, para se concentrar naquilo que o leitor mais apreciará: os pensamentos e as emoções que reflectem cada acção e o sucessivo decorrer de acontecimentos inesperados.

Recomendo a todos os apreciadores de thriller e suspense. Para aqueles que se querem iniciar no género, também me parece uma boa escolha. Dentro do género, é um livro imperdível.

Leituras do Corvo

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Wednesday, 10 February 2010

O Simbolo Perdido


De Dan Brown
Bertrand 2009

Mais um exaustivo catálogo de simbologia, conceitos e rituais sobre um tema mais ou menos esotérico. Desta vez muito bem empacotado um autentico dicionário maçónico. Dan Brown descobriu uma fórmula e aplica-a até à exaustão. O livro tem um ritmo mais morno que os anteriores e o final é mesmo fraquinho. Pouco acima de razoável.


Doze horas alucinantes! O leitor mergulha mais uma vez num mundo de misticismo, sociedades secretas e locais escondidos de uma Washington pouco reconhecida. O que esconde, afinal, a Chave de Salomão? Que mensagens secretas estão codificadas nesse livro misterioso? Robert Langdon, o professor de Harvard especialista em Simbologia, tem apenas 12 horas para o revelar. São horas repletas de intrigas, perseguições e reviravoltas, que a Bertrand se prepara para editar já no final de Outubro, mês e meio depois da publicação do livro em inglês. É pois o regresso de Dan Brown ao registo que o tornou mundialmente famoso: pictogramas cifrados, mensagens ocultas, símbolos descodificados, "suspense" e acção a um ritmo vertiginoso.

Crítica:
Numa época em que proliferam teorias sobre o fim do mundo, o Apocalipse, 2012, a Profecia Maya, o juízo final e tudo o que diz respeito ao mundo que conhecemos, foi publicado o mais recente livro de Dan Brown, ‘The Lost Symbol’ ou, traduzido para português, ‘O Símbolo Perdido’.

Claro está que, depois de tal introdução, surgem duas perguntas perfeitamente plausíveis para o leitor: o que é o Símbolo Perdido que merece o título de um romance que mistura ficção com realidade? E porque se relaciona um livro sobre maçonaria (sim, o livro fala-nos principalmente sobre este grupo que cultiva a filantropia e valores como a liberdade, democracia e igualdade) com o fim do mundo?

Todos devem saber que a personagem fulcral é o famoso e aclamado Robert Langdon, já tão conhecido depois das suas aventuras no Vaticano e em Paris. Aqui, ele terá de se embrenhar numa nova aventura, desta vez para perceber um mapa antigo e maçónico, que o conduzirá a um lugar onde estão guardados os Mistérios Antigos, dos quais fazem parte os conhecimentos valiosos, sobre a humanidade, a natureza, a ciência e todo o mundo que conhecemos.

Numa viagem alucinante pelo coração da capital dos EUA, Langdon desenvolve o seu projecto debaixo de grande pressão, no breve período de 12 horas, numa corrida louca para conseguir encontrar os Mistérios Antigos e para que, dessa forma, possa revelar ao raptor do seu melhor amigo, uma palavra antiga e poderosa, que deverá ser tatuada no seu corpo. O principal objectivo do raptor é, portanto, obter conhecimento para que se consiga tornar num ser divino.

Misturando Maçonaria com uma nova ciência, a Noética, a escrita de Dan Brown é ainda inovadora, porque apesar de termos uma surpresa quanto á identidade do verdadeiro conspirador, já não encontrámos aquele cliché em que o vilão é, afinal, o aliado mais inesperado. É importante referir também que este romance, ao contrário dos dois livros anteriores, não envolve Robert em nenhum caso amoroso e não faz referências a anteriores.

No fim, falando do Apocalipse, Dan Brown explica este fim do nosso mundo com uma teoria muito mais plausível, que só poderá ser descoberta se os leitores se atreverem a partir nesta demanda pelo conhecimento antigo e para conseguirem encontrar o Símbolo Perdido!

Com uma escrita fluente, por vezes complexa devido a noções científicas, com capitulo curtos e de leitura fácil, que prendem o leitor às páginas do livro!

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Monday, 11 January 2010

A Filha da Floresta


De Juliet Marillier
Bertrand Editora 2001

Começa muito morno e primeiro que ganhe ritmo ainda demora. A primeira parte arrasta-se, a segunda devora-se. Vale a pena para quem goste do género das Brumas mas a meu ver estes nem se deveriam comparar. Estou curioso por ler o segundo volume, as lendas Irlandesas começam a me intrigar.


Passada no crepúsculo celta da velha Irlanda, quando o mito era Lei e a magia uma força da Natureza, esta é a história de Sorcha, a sétima filha de um sétimo filho, o soturno Lorde Colum, e dos seus seis amados irmãos.

O domínio de Sevenwaters é um lugar remoto, estranho, guardado e preservado por homens silenciosos e Criaturas Encantadas que deslizam pelos bosques vestidos de cinzento e mantêm armas afiads. Os invasores de fora da floresta, os salteadores do outro lado do mar, os Bretões e os Viquingues, estão todos decididos a destruir o idílico paraíso. Mas o mais urgente para os guardiões é destruir o traidor que se introduziu dentro do domínio: Lady Oonagh, uma feiticeira, bela como o dia, mas com um coração negro como a noite. Oonagh conquista Lorde Colum com os seus sedutores estratagemas,; mas não conseque encantar a prudente Sorcha. Frustrada por não conseguir destruir a família, Oonagh aprisiona os irmãos num feitiço que só Sorcha pode quebrar. Se falhar, continuarão encantados e morrerão!

Então os salteadores chegam e Sorcha é capturada, quando está apenas a meio da sua tarefa… Em breve vai ver-se dividida entre o seu dever, que lhe impõe que quebre o encantamento, e um amor cada vez mais forte, proibido, pelo senhor da guerra que a capturou.


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Monday, 30 November 2009

Repórter de Guerra


De Luis Castro
Oficina do Livro 2007

Um relato na primeira pessoa de alguns dos grandes conflitos que nos habituámos a ver no pequeno ecrã. Emoção, humor, crueldade ... o mundo real, infelizmente.


Contar a verdade mesmo que isso lhe custe a própria vida: é esta a missão assumida por Luís Castro. De Cabinda a Timor, da Guiné ao deserto iraquiano, o jornalista vestiu o papel de repórter, que lhe deu, mais do que glória e fortuna, a possibilidade de ter estado onde se escreveu a História. Das suas mãos chegaram mais de quatrocentas reportagens a Portugal, acompanhadas de imagens que valem tanto como as palavras que redigiu e que o colocaram no centro de tantos conflitos armados. Luís Castro reviu blocos de apontamentos, visionou mais de mil horas de imagens em bruto, transcreveu diálogos e falou com os repórteres de imagem que o acompanharam em cada momento.
Mas este livro é muito mais do que o fruto de um trabalho minucioso. É um percurso de um homem de coragem que mesmo nas piores situações não virou a cara à luta e sobreviveu para a contar. Recusando artificialismos e rodeios, registou os factos. Aqui está o que (lhe) aconteceu. Sem tirar nem pôr.

Extractos:
Não escolhi palavras bonitas para embelezar o texto. É meramente factual. O que aqui está, aconteceu. Mesmo. Sou contra as fantasias.

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Sunday, 27 September 2009

O pêndulo de Foulcault


De Humberto Eco
Difel 1988

Obra densa e difícil. Não pude deixar de me sentir perdido no meio de tanto facto. Custou-me bastante a lê-lo.


Nos nossos dias, três redactores editoriais italianos, cansados da rotina, são levados pela curiosidade e sede de cultura a retomar a curiosa história de um segredo dos Templários. Um segredo que os Cavaleiros teriam ocultado no momento da extinção da ordem e da condenação à morte dos seus dirigentes em 1312. A descoberta de um “Plano” centenário para dominar o mundo vai levar os três homens muito longe na procura da verdade.
Umberto Eco consegue assim, num mesmo livro, misturar romance histórico, aventura e mistério. O resultado é um inquietante relato que nos faz pensar: poderá ser verdade? Poderemos ser todos vítimas de uma enorme conspiração de proporções cósmicas?

Crítica:
Belbo, Diotallevi e Casaubon conheceram-se no período revolucionário estudantil dos anos 6o e, anos mais tarde, reúnem-se através de uma editora para um projecto de edições literárias sobre o misticismo e ocultismo criados à volta da história dos templários. É pelos olhos do doutorado Casaubon que vamos sendo informados dos acontecimentos, nem sempre de forma linear, dos três editores. Envolvendo-se no tema de forma mais pessoal do que deveriam, os três vão desenvolvendo uma teoria por entre toda a informação cruzada que recebem de textos de época e de escritores fascinados pela história da Ordem. É assim que criam O Plano.

Esta será uma sinopse de O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. O que esta sinopse, e outras, escondem é o complexo pensamento revertido de Umberto Eco, para além da sua perfeccionista cultura. Se a última é por demais conhecida, quer pelos seus vários ensaios quer pelo seu trabalho enquanto semiologista, o que esperar do processo de escrita de Eco depois de O nome da rosa? Em O pêndulo de Foucault, Eco volta a surpreender-nos, desta feita pelas inversões que faz da história. Se em O nome da rosa nos inquietávamos, apesar da cultura medieval subjacente, como num policial de Agatha Christie; neste caso tentamos perceber, com o que nos vai sendo dado, a veracidade desta teia de conspirações que os intervenientes vão tecendo.

Uma vez mais, Eco mostra que há um propósito para além da mera demonstração de cultura, embora esta fosse suficiente. O pêndulo de Foucault, como livro de ficção que embarcasse no tema das conspirações sobre a história dos templários, da maçonaria e do Graal, seria facilmente superior a qualquer um. Pelas bases históricas que apresenta, ao nível dos textos citados, pela coerência e profundidade da escrita e pela forma como os temas estão expostos e aprofundados. Contudo, o livro não se resume, como os outros, a isso. Bem ao estilo de Eco, há algo mais.

O pêndulo de Foucault é um livro sobre a crença desmedida, sobre a necessidade do homem de acreditar no oculto, em algo mais do que nas coincidências e o óbvio. É um livro sobre como três homens conseguem facilmente encher as medidas a todos os paranóicos desesperados por uma teoria bem urdida. Invertendo o conceito, hoje em dia generalizado, de que há conspirações e grupos secretos que moldam a sociedade das suas catacumbas, Eco questiona a nossa capacidade racional de enfrentar a nossa necessidade de algo grandioso e oculto. Eco apresenta ainda, apesar de pecar por vezes pelo excesso de erudição que afastará algum público, um muito bom resumo para alguém interessado em iniciar-se na história dos templários, da maçonaria e de mais algumas ordens secretas.

Por último, O pêndulo de Foucault é uma lição para toda a panóplia de livros místicos que povoa as livrarias portuguesas. Inclusive, e especialmente, para o Código da Vinci. Umberto Eco mostra como bem escrever, como bem pensar e como fugir ao óbvio. Mostra como tecer uma boa história, corroborada pela coerência histórica e lógica, mantida pelo interesse narrativo de um policial. Uma leitura que não será tão fácil, mas que se demonstrará, sem dúvida, mais proveitosa. Em suma, um romance histórico que não apela a ser lido na praia e de forma light, mas sim ao uso desse bem inestimável, o pensamento.

Críticaartistica.blogspot.com

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Sunday, 8 March 2009

A canção da espada


De Bernard Cornwell
Planeta Editora 2008

Aborreceu-me. Mais de metade do tempo é passado em referências aos livros anteriores numa tentativa ultra exagerada de enquadrar quem não tenha seguido a série. As batalhas, os pensamentos, os diálogos tudo uma grande repetição. Tenho receio que o resto da série seja muito mais do mesmo.


A Canção da Espada [4.º volume] conta-nos a história da formação de Inglaterra, as vivências na Idade Média e, como todos os romances anteriores de Bernard Cornwell, baseia-se em factos históricos reais.
É uma história envolvente de amor, enganos e violência, que se desenrola numa Inglaterra de tremenda agitação e conflito, contudo galvanizada por uma réstia de esperança de que Alfredo,
o grande rei do Wessex, possa revelar-se uma força duradoura. Uhtred, o seu maior guerreiro, tornou-se a sua espada, um homem temido e respeitado em todo o território, o seu Senhor da Guerra.

Corre o ano de 885 e a Inglaterra está em paz, dividida nos reinos dinamarquês, a norte e saxão do Wessex, a sul. Uhtred, o filho despojado de um senhor da Nortúmbria, guerreiro por instinto, viking por natureza, parece ter assentado. Possui terras, tem uma esposa, dois filhos e um dever que lhe foi atribuído por Alfredo — defender a fronteira do Tamisa. Mas os problemas espreitam; um homem voltou dos mortos e novos vikings chegaram para ocupar Londres. O seu sonho é a conquista do Wessex, e para o realizarem necessitam da ajuda de Uhtred.
Alfredo tem ideias diferentes. Quer que Uhtred expulse os saqueadores vikings de Londres. São tempos perigosos e Uhtred tem de decidir quanto o seu juramento o prende ao rei. E formam-se mais nuvens de tempestade. Æthelflæd — a filha de Alfredo — casou, mas uma cruel partida do destino faz com a sua própria existência se torne uma ameaça ao reino do pai. E será a lealdade incerta de Uhtred, meio saxão e meio dinamarquês, a decidir todo o futuro de Inglaterra.



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Saturday, 7 February 2009

O Envagelho segundo Jesus Cristo


De José Saramago
Caminho 1991

Muito interessante sobretudo para quem conheça um pouco o novo testamento. Alguns episódios são relatados cronológicamente trocados, outros são simples eventos relatados por terceiros empolados pelo boato, outros são descreditados por todos. Chega a ser diverido seguir a narrativa e aqui e ali surgir algo que conhecemos iluminado por outra luz, vestido de outras roupagens, totalmente humanizados e despojados de glória. O relato acompanha a história de Jesus na sua busca pessoal pelo seu propósito na vida e na sua tentativa final de ser desacreditado como louco de modo a poupar ao homem à calamidade do Cristianismo (com grande referência à sangrenta Santa Madre Igreja). Gostei.


É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.

Extractos:
O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.
A Inquisição é uma polícia e é um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue
Crítica:
Toda apresentação de alguém a partir do nosso pensamento não se faz sem injustiças. Nesse sentido, apontarei alguns trechos do romance de ficção do escritor português José Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo, que certamente eu não conseguiria dar uma devida apresentação sem cometer injustiças. Não há nada melhor que conhecer um autor pela sua própria obra, e mesmo assim não estaremos livres de cometer deturpações do seu pensamento, afinal, tomar conhecimento dos pensamentos de um autor é tomá-los sob o manto dos nossos pensamentos, de tal forma que nunca chegaremos ao sentido do autor senão em devidas proporções de proximidade.

Saramago, tomando a liberdade da criatividade que as palavras nos permitem, escreveu essa belíssima obra de ficção, contudo, parece ser possível darmos contornos de “realidade”, dependendo do ponto de vista do leitor. Em contrapartida, lembremo-nos de que para falar sobre a vida de Jesus, ou do personagem Jesus, perante uma cultura onde o cristianismo enquanto instituição se cristalizou há milênios, como bem sabemos, só é legitimada enquanto discurso reservado aos sacerdotes, em outras palavras, não se fala de Jesus Cristo enquanto “palavra da verdade” senão pela caduquice dos catedráticos da religião.

No meio religioso, vários tomaram a obra de Saramago sob a cegueira da fé, da ordem da Verdade e do sagrado, pariram uma interpretação mutilada e disforme, ou melhor, em forma com a moral cristã. É nesse sentido que parece ser o mais adequado compreendermos como foi a reação do público quando foi lançada a obra. Merece ainda ser tomado de nota, que a reação das massas não merece muito da nossa atenção senão a desconfiança.

Saramago apresenta-nos um Jesus humano como todos os outros, tão humano que nos admiração. Jesus é um homem que em sua época se destoa dos demais pela sua inteligência de questionar, ir além, seja de Deus ou do homem; a própria Maria, mãe de Jesus, não escapa da argúcia do filho, de tal modo que, devido aos conflitos entre eles, Jesus resolve partir sozinho em busca de suas respostas existenciais.

Eis que Deus aparece ao homem Jesus e lhe diz que é seu pai, eis então um Jesus mais repleto de questionamentos: que queres tu de mim? por que tem que ser assim? se tens tanto poder assim, por que queres tanto mal? - Não se surpreenda o leitor se perceber um Deus lacônico, um pai pouco interessado no filho.

Esse é só um ponto de partida de uma obra que tem a capacidade de nos fazer sentir dentro de todo o cenário cultural e social que envolvia a vida de Jesus Cristo, bem como suas dificuldades, seus anseios e suas dores. A riqueza dos detalhes com que Saramago consegue “mostrar” os cenários, os comportamentos, os personagens e toda atmosfera da época, pode fazer o leitor sentir os pregos rasgando as mãos e os calcanhares durante as crucificações. Ou o que sentirá os leitores, nos momentos iniciais da obra, quando Saramago narra os sacrifícios de bois, cordeiros e bezerros no Templo, local de oferenda de sangue ao Deus beberrão? Tanta crueza que Jesus se nega a fazer o que todos faziam.

Para além da ordem sagrada, cega em suas próprias verdades, Saramago nos mostra uma ficção, porém, muito além da ficção bíblica. Em “O evangelho segundo Jesus Cristo”, o homem Jesus Cristo é um personagem comum, por isso sentimo-nos que ali ele é “real”, em suas aventuras e dores pelo mundo de Jerusalém afora, trabalhará para o Diabo, desafiará Deus, tentará convencer a mãe de que aquilo que todos seguem não significa o derradeiro caminho, e o que diremos, dele Jesus, que conhecerá os prazeres da vida com a prostituta Magdala.

Por não ser real, a obra de Saramago torna mais real que a nefasta Bíblia. Abaixo, alguns trechos do livro, mantidos ao estilo de Saramago, deliciem-se:


Jesus durante uma discussão com a mãe que lhe pede para abandonar os pensamentos maus:

“(…) Ó minha mãe, os pensamentos são o que são, sombras que passam, e não são bons nem maus em si mesmos, só as acções é que contam, Louvado seja o Senhor que me deu um filho sábio, a mim que sou uma pobre ignorante, mas sempre te digo que essa não é a ciência de Deus, Também se aprende com o Diabo (…)”

O momento onde Deus, o Diabo e Jesus travam debates, em uma barca perdida, em meio a um nevoeiro de 40 dias é um dos mais belos do livro. Jesus, neste momento, faz uma série de questionamentos a Deus que até então só o tinha avisado que seu nome seria exaltado na Terra a partir da morte de Jesus. O Diabo também participa, pois sabe que o projeto divino é projeto de ambos (Deus e Diabo):

“(…) . Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas, Finalmente, estás a ser claro e directo, continua, Para começar por quem tu conheces e amas, o pescador Simão, a quem chamarás Pedro, será, como tu, crucificado, mas de cabeça para baixo, crucificado também há-de ser André, numa cruz em forma de X, ao filho de Zebedeu, aquele que se chama Tiago, degolá-lo-ão, E João, e Maria de Magdala, Esses morrerão de sua natural morte, quando se lhes acabarem os dias naturais, mas outros amigos virás a ter, discípulos e apóstolos como os outros, que não escaparão aos suplícios, é o caso de um Filipe, amarrado à cruz e apedrejado até se lhe acabar a vida, um Bartolomeu, que será esfolado vivo, um Tomé, que matarão à lançada, um Mateus, que não me lembro agora de como morrerá, um outro Simão, serrado ao meio, um Judas, a golpes de maça, outro Tiago, lapidado, um Matias, degolado com acha-de-armas, e também Judas de Iscariote, mas desse virás tu a saber melhor do que eu, salvo a morte, por suas próprias mãos enforcado numa figueira, Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já to disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas (…)”

(…) A Inquisição é uma polícia e é um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. (…)”

Jesus, em longa viagem que fazia, feriu-se o pé, na qual parou para pedir ajuda em uma cidadezinha. Conhece então Maria de Magdala, prostituta que cura Jesus, e este “cura” a Magdala, e ambos passarão a caminhar juntos. Porém, Magdala não oferece apenas seus dotes de hospitalidade:

(…) Depois, juntos, Jesus amparado, como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de Magdala que o curou e o vai receber na sua cama, entraram em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco e limpo. (…) Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele (…) Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito. (…)


EternoRetorno

O Evangelho segundo Jesus Cristo não é um livro novo. Ao contrário. São transcorridos mais de 10 anos, após a sua primeira edição, em Portugal, em 1991, Editorial Caminho. Mas, tão-somente agora, tive a chance de ler mais esta publicação do português José Saramago, e mais, em português de Portugal. Não costumo resenhar livros antigos, mas não resisti. O sentimento de fascinação foi mais forte e venceu! Há tempos não visualizava um Cristo tão humano, tão imperfeito, e assim sendo, tão maravilhoso e próximo da perspectiva de que o ser humano é feito à imagem e à semelhança de Deus.



Verdade que, quando do seu lançamento, O Evangelho... foi considerado ofensivo para a Igreja Católica, a tal ponto que a “guerra” nada santa deflagrada entre a Igreja e o então subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, contra Saramago, estimulou o autor a se refugiar numa ilha da Espanha, Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde vive. O seu Cristo humanizado; a sua Virgem Maria receptiva ao amor carnal do esposo; o seu São José moído de remorsos por sua fuga covarde, deixando para trás as crianças pequeninas de Belém nas mãos do assassino Herodes; e a sua doce Maria Madalena causaram furor dentre os católicos ortodoxos, que não conseguiram enxergar a possibilidade de redimirmos, todos nós, as nossas falhas.



Nascido em Azinhaga, província de Ribatejo, em 1922, sem diploma universitário, por conta das dificuldades econômicas da família camponesa, José Saramago exerceu, ao longo da vida, uma série de ofícios ( serralheiro, mecânico, desenhista, funcionário público) até se aproximar das letras. A princípio, como editor. Depois, como tradutor e jornalista, lançando o seu primeiro romance ( Terra do Pecado), ainda em 1947, embora, somente em 1966, volte a publicar e até os dias de hoje, continue a fazê-lo.



Traduzido em quase todos os continentes e nas mais diferentes línguas, o premiado Saramago, detentor de láureas nacionais ( Prêmio Consagração Sociedade Portuguesa de Autores, 1995; Prêmio Camões, 1995, dentre muitas outras) e internacionais, como o Prêmio Internacional Literário Mondello e o Prêmio Literário Brancatti, ambos de 1992 e ambos pelo conjunto da obra, Saramago faz retumbante sucesso em países, afora a sua Espanha e o nosso Brasil: França, Cuba, Estados Unidos, Itália, Holanda, Alemanha, Romênia, Suécia, Finlândia, Rússia, Japão, Argentina, Colômbia e México são alguns exemplos.



Além do mais , transita em, praticamente, todas as esferas da literatura: poesias, crônicas, memórias de viagem, peças de teatro, diários ( em 1997, lançou os Cadernos de Lanzarote, cinco volumes), além de contos, e, sobretudo, de romances. Dentre estes, difícil reconhecer o melhor. Memorial do convento (adaptado como ópera pelo italiano Azio Corghi), foi o primeiro a lhe dar notoriedade, em 1982. Ensaio sobre a cegueira , 1995, é de beleza indescritível . O ano da morte de Ricardo Reis traz à tona uma Lisboa, em plena ditadura (1936), mas numa atmosfera de irrealidade habilmente construída, incluindo, dentre os personagens, o magnífico poeta Fernando Pessoa. Todos os nomes, de 1997, por sua vez, permite passeio por uma Lisboa irretorquível .



Se é tarefa complexa hierarquizar a obra de Saramago, é fácil reconhecer o seu livro mais polêmico: O Evangelhosegundo Jesus Cristo. Ele lhe deu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, embora, paradoxalmente, o desafeto Sousa Lara tenha, na ocasião, retirado o título da listagem do Prêmio Europeu de Literatura . É preciso lembrar que a proposta de Saramago não é de reescrever o Evangelho, mas si, um romance, cujo“mote” são acontecimentos fundamentais para o cristianismo. Há cenas de rara beleza. O sentimento de negligência de José, o seu enforcamento, e, sobretudo, o tormento que repassa ao filho ( também, filho de Deus), numa herança dolorosa e odiosa, em sonhos entrecortados de dores e de culpa, é descrito, de forma magistral, em trechos variados.



A descrição da madrugada é pura poesia: “[...] a hora que o crepúsculo matutino cobre de cinzento as cores do mundo [...] O sol ainda tarda a despontar, não há, por todos os espaços celestes, o mais lavado indício dos rubros tons do amanhecer, sequer uma pincelada leve de róseo ou de cereja mal madura [...] (p. 17). E o que dizer da delicadeza da cena em que Maria cumpre o seu“dever” de mulher casada, sob o olhar discreto de um Deus complacente?



Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria. Ela desviou os olhos, soergueu [...] a parte inferior da túnica [...] Abrira as pernas [...] fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres [...] Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas umas e outras para isso mesmo [...] Em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado. Tendo pois saído para o pátio, Deus não pôde ouvir o som agônico, como um estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir (p. 18-19).



O despertar da sexualidade de Jesus ao lado de Madalena é entremeado de frases de raras belezas. Primeiro, quando lamenta não ter ele lhe conhecido no auge da sua beleza de mulher, e Jesus responde: “Conheço-te na beleza desta hora”, deixando evidente a possibilidade de cada um viver o seu próprio momento. Depois, a confissão sobre a sua virgindade, quando ele diz: “ Não conheço mulher”.



Quaisquer que sejam as nossas crenças religiosas, não há dúvidas! O Evangelho... é uma obra-prima, recheada de passagens literariamente incríveis. É o caso da descrição da fuga de Herodes. É o diálogo, em pleno mar, entre os três: um Deus vingativo e consciente do preço a ser pago pela humanidade para que o seu poder ganhe força ; um Diabo simpático e, ao mesmo tempo, apoquentado por atuar , sempre , como contraponto à presença de Deus ; um Jesus maravilhosamente imperfeito!



Por fim, acredito: O Evangelho... é muito mais romance que ofensa. Talvez a opção de Saramago por um evangelho decorra da singeleza dos diálogos entre os vários personagens, da descrição estonteante de cenas simples, que se passam num tempo longínquo, e, principalmente, do farto uso de apólogos / fábulas / parábolas, à semelhança do que se vê nos evangelhos, estes sim, os quatro livros principais do Novo Testamento, perpetuados pela nossa Madre Igreja.

UmaCoisaeOutra

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Thursday, 20 November 2008

Nem aqui nem ali


De Bill Bryson
Quetzal Editores 1991

Muito bom, este é um livro que se devora. Quem já percorreu a Europa de mochila não pode deixar de esboçar um sorriso com as descrições e rever-se em muitas delas. Noutras a inocência do narrador é tal e as situações tão caricáticas que não podemos conter as gargalhadas. Só não concordo com a crítica apresentada sobre a gastronomia Alemã, eu pessoalmente não tenho razão de queixa, muito pelo contrário. A não perder.



Quem já tenha andado pela Europa ficará cativado pela combinação de temor e atordoamento que Bill Bryson empresta a esta memória ruidosamente cómica de uma viagem pelo Velho Continente. Ao deambular por Paris, Amesterdão, Copenhaga, Estocolmo, Roma, Genebra, Viena e outras grandes cidades da Europa, Bryson - o escritor que mais livros de viagens vende na actualidade - explica como os Franceses são geneticamente incapazes de «formar bicha»; por que motivo a cerveja jugoslava encoraja as pernas a «avançar para um pequeno passeio lunar involuntário»; e interroga-se quanto ao facto de o Armistício não ter exigido aos Alemães que depusessem os acordeões juntamente com as armas....

Extractos:
Os Italianos estacionam como eu faria se vertesse um jarro de ácido clorídrico no colo.
A meu ver, o único animal de estimação possível é a vaca. As vacas amam-nos. São inofensivas, têm bom aspecto, não precisam de um caixote para defecar, mantêm a erva controlada e são tão confiantes e estúpidas que não se pode senão abrir-lhes o coração. No lugar onde vivo, no Yorkshire, existe uma manada de vacas ao fundo da vereda. Podemos encostar-nos a um muro a qualquer hora do dia ou da noite que, passado um minuto, todas as vacas virão a balançar-se e ficarão junto de nós, demasiado estúpidas para saberem o que fazer a seguir, mas felizes só por estarem connosco. Tanto quanto sei, ficariam ali o dia todo, possivelmente até ao fim dos tempos. Escutarão os nossos problemas e nunca pedirão nada em troca. Serão nossas amigas para sempre. E quando estivermos fartos delas, podemos matá-las e comê-las. Perfeito.

Saturday, 25 October 2008

Rio das Flores


De Miguel Sousa Tavares
Oficina do Livro 2007

No global gostei.
Tenho sentimentos antagónicos em relação a este “romance”, por um lado é recheado dos factos que formaram a primeira metade do século XX tornando-se um belo testemunho de uma parte da nossa história, a ascensão do Estado Novo no contexto geopolítico da época, por outro, o excesso de informação e datas é por vezes monótona, por um lado temos a visão da vida no Portugal de então, em tantas coisas análogo ao nosso, por outro a história das personagens é basicamente estagnada. Como romance pouco me entusiasmou, algumas coisas até me confundiram como ser humano. Como é que alguém com um casamento feliz aos mais vários níveis, sem nunca ter tido uma discussão de potencial ruptura que fosse com a esposa, pura e simplesmente a decide trocar por outra? Pareceu-me uma solução cómoda em contra censo a toda a criação do personagem até então. Como relato histórico do mundo e do nosso cantinho está muito bom, deu-me oportunidade de aprofundar os meus conhecimentos sobre uma época que o sistema de ensino, do meu tempo pelo menos, fez por se esquecer que existiu. A meu ver a componente histórica compensa o romance e por isso posso dizer que gostei.



Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história do século XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário no Alentejo, Espanha e Brasil. Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos, somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade de um século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde o caminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço a pagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e o apelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de uma vida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguem percursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar da coerência e da felicidade.

Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho de pesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores, paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontade de mudar a ordem estabelecida das coisas. Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentando manter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada por décadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.

Crítica:
Rio das Flores é uma história simples. Todo o romance se consegue resumir a um parágrafo, pois basicamente, não se passa nada de importante na vida das personagens até poucas páginas do fim.
Os Ribera Flores vivem em Estremoz, são a típica família alentejana. Diogo e Pedro são os herdeiros da herdade onde vivem. Diogo é o oposto do irmão, sonhador, ambiciona construir família, mas num país livre, onde possa gozar a vida, ler os seus livros, os seus jornais, sem censura. Já Pedro, é a favor da ditadura, acha que o Estado Novo faz com que Portugal desenvolva. É um patriota fincado.
Além de Estremoz, a história desenrola-se (ou não, porque o novelo do enredo é solto a 30 páginas do fim) em Lisboa, em Espanha e no Brasil. Lisboa é a cidade de escape de Diogo, gosta daquele ócio que se sente por lá, de ter as notícias daquilo que acontece no mundo em primeira mão. É em Lisboa que decide juntar-se a dois homens e construir um negócio de exportação de bens do Brasil. E é por este negócio que Diogo começa a viajar para o Brasil e a começar a gostar cada vez mais do país.
Pedro continua confinado a Estremoz, mas decide, um dia, lutar na Guerra Civil Espanhola, depois de uma desilusão amorosa.
Toda a história se desenrola mais ou menos na primeira metade do século XX, abrangendo a Primeira Grande Guerra, a queda da República em Portugal, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Grande Guerra. Para um autor jornalista, tem aqui muito material por onde pesquisar e por onde pegar, para que as suas personagens se envolvam nos acontecimentos que marcaram esta metade do século. E esse é, talvez, o maior erro de Rio das Flores, todos estes acontecimentos são demasiado explorados. São páginas e páginas seguidas de descrição de acontecimentos de qualquer uma destas guerras, onde raramente se toca no nome de alguma das personagens. O romance está visivelmente dividido em dois. Há a parte da evolução das personagens (que é quase nula) e a parte dos acontecimentos históricos (que de nula, as suas descrições não têm nada).
Claro que é de louvar o grande trabalho de pesquisa que Miguel Sousa Tavares fez para este livro mas, o que se destaca mais neste livro não é a história das personagens, mas sim o relato histórico daquilo que acompanha as suas vidas, o que não é o mais importante num romance. Talvez, num próximo livro, Miguel Sousa Tavares consiga distinguir a profissão de jornalista, da profissão de escritor, porque acho que as confundiu um pouco no livro. O jornalismo ressente-se muito mais no livro do que a dita literatura que o romance prometia.

www.oamador.com

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Wednesday, 3 September 2008

As Mulheres do Rei

de Dinah Lampitt
Edições da Actualidade 1994

Gostei. Deu-me oportunidade de espreitar uma época da história que não conhecia bem. Fiquei com interesse de investigar mais Joana D'Arc.

França no início do século XV, à sua frente um rei louco e uma rainha cujos apetites de prazer sensual eram insaciáveis. Os grandes senhores feudais da Borgonha e Armagnac erguem-se para tomar a coroa - direito inalienável de um pequeno garoto feio, o Delfim Carlos, sobre quem recai o futuro de toda a França.
Só Iolanda, a corajosa e elegante Duquesa de Anjou, rainha da Sicília, entende a responsabilidade da pobre criança, e o recebe no seu belo e arejado chateau para que cresça longe da terrível influência da corte.
Mas a própria Iolanda não é livre de problemas. A fugaz visita do jovem Conde de Richmond, traz uma paixão à sua vida que ela não consegue dominar e um segredo ameaça o seu estatuto como a impertubável procuradora do seu marido.
No entanto, é a partir desta união pouco provável da duquesa estadista com o jovem nobre selvagem - uma das mais belas histórias de amor da história - que irá nascer a esperança do reino : uma menina inocente irá liderar o diminuído exército francês e levá-lo ao triunfo sobre os Ingleses, reinstituindo Carlos como o mais deslumbrantes rei, que a França jamais conheceu.
Uma obra-prima em romance, AS MULHERES DO REI traz à vida um tempo vibrante de glória e de dissipação quando astrólogos e clérigos detinham enormes poderes e quando o caminho sinuoso da Sorte escolheu mulheres para moldar o destino dos homens.

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Thursday, 5 June 2008

A Alameda do Rei

de Françoise Chandernagor (Wikipedia)
Livros Quetzal, 1997


Não consegui acabar este livro. A certa altura as intrigas da sociedade aborreceram-me de morte. Talvez outro dia consiga levar a tarefa a bom porto.

É à descoberta de uma mulher, bela mas com espírito, ambiciosa mas com dignidade, secreta mas sincera, razoável e simultaneamente apaixonada, que nos leva A Alameda do Rei, ao mesmo tempo que nos faz entrar na luxuosa e delirante corte de Versalhes, nos segredos de alcova como nas grandes decisões políticas. Um fresco empolgante e inesquecível de uma das épocas mais esplendorosas e controversas da história de França.








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